Vivaldo Lopes
O Brasil termina 2020 com o espectro da inflação rondando as contas do país, a gestão de custos das empresas e as vidas das pessoas. Com a divulgação dos dados da inflação da primeira quinzena de dezembro, pelo IBGE, o Banco Central estima que vamos concluir o ano com inflação, medida pelo IPCA/IBGE próximo de 4,4%, acima da meta estabelecida pelo próprio Banco Central, de 4%, e bem acima das expectativas iniciais dos analistas de mercado que era de 3%.
Nada assustador, mas uma preocupação a mais para o Banco Central, que precisará monitorar de perto o comportamento dos preços nos primeiros meses de 2021, para mensurar o potencial de estragos que pode causar na retomada da atividade econômica prevista para o próximo ano, para, então, decidir se altera ou mantém a taxa básica de juros (Selic), atualmente estabilizada em 2% ao ano.
Para o Banco Central e especialistas da área, a alta abrupta da inflação, com destaque para itens de alimentação, medicamentos, saúde e vários componentes das despesas domésticas, foi a grande surpresa econômica do ano. Além, naturalmente, da famigerada pandemia da covid-19.
Estudos explicam o aumento da inflação como resultado do impulso de consumo gerado pelos incentivos financeiros executados pela administração federal para auxiliar estados, municípios, empresas e, principalmente, a ajuda emergencial para socorro aos desempregados e fragilizados socialmente, que direcionaram para o consumo a maior fatia dos recursos.
Além disso, o aumento das exportações, estimuladas pela alta demanda externa (leia-se China), aumento dos preços em dólar e a variação cambial favorável, levaram o setor do agronegócio a direcionar para o exterior a maior parte de sua produção, resultando em escassez no mercado interno das principais commodities agropecuárias, como soja, milho, arroz, carnes.
Acrescente-se que a parada brusca do parque fabril brasileiro no final de março e início de abril fez com que, na retomada das operações das fábricas, a partir agosto, houvesse redução da oferta de matérias primas e insumos básicos das cadeias produtivas, encarecendo a produção e, consequentemente, os preços finais de venda. Outros preços subiram por terem cadeias de suprimentos impactados pela variação cambial.
Formou-se quase um consenso entre os economistas que a alta da inflação teve aspectos conjunturais que serão dispersados a partir do primeiro trimestre de 2021 com a interrupção do auxilia emergencial às famílias de renda baixa, melhoria do ambiente econômico mundial em razão da mudança de governo nos Estados Unidos e início das vacinações nos países desenvolvidos e no Brasil.
A maior parte das projeções para 2021 aponta inflação de 3,5%. Abaixo, portanto, da meta, mesmo contando ainda com alguns riscos importantes no cenário econômico doméstico. O início da vacinação contra a covid-19 em vários países deve contribuir para retomada do crescimento econômico mundial, que, por sua vez, deve trazer maior estabilidade e ajudar a valorizar moedas de países emergentes.
O cenário poderia ser mais otimista se houvesse o encaminhamento de planos para a política fiscal. Isso reduziria a incerteza sobre o futuro, abrindo espaço para novas valorizações da moeda nacional e menor pressão inflacionária. A expectativa é de que a inflação ainda sofrerá o carregamento estatístico do último trimestre de 2020 e cederá a partir do final do segundo quadrimestre. A economia brasileira sofrerá muito, nesta fase de transição da parada forçada pela pandemia para o retorno à normalidade da atividade econômica, se tiver que enfrentar simultaneamente fantasmas do passado econômico como elevadas taxas de inflação.
A conquista da estabilidade econômica em 1994, com a implantação do Plano Real, fez o Brasil afastar-se da convivência tóxica com inflação anual acima de dois dígitos percentuais. Falta ainda retirar completamente do seu arcabouço institucional e legal, a antiquada figura da indexação automática de preços e contratos aos diversos indicadores de inflação.
A indexação automática tornou-se um perverso instrumento de retroalimentação inflacionária ( a chamada inflação inercial ). Trata-se de bom desafio para um bom ministro da Economia e um presidente de Banco Central com talentos técnicos bem acima dos que seguraram os dois bastões nestas últimas temporadas.
Vivaldo Lopes é economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA Gestão Empresarial-FIA/USP (vivaldo@uol.com.br)
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