Gonçalo Antunes de Barros Neto
Publicado em 1516, Utopia não é só o batismo de um gênero; é um espelho invertido da Europa renascentista. Escrita por um humanista católico que dialogava com Erasmo, a obra usa a viagem fictícia de Rafael Hitlodeu para descrever uma ilha onde não há propriedade privada, as leis são poucas e claras, o trabalho é distribuído e a política é exercida por magistrados eleitos. Ao propor uma sociedade sem fome e com um dia de trabalho de seis horas, More não “prevê” o socialismo: compõe um experimento mental que confronta vícios de seu tempo — luxo, ociosidade nobre, pobreza, guerras dinásticas — com uma ordem racional e austera.
A comparação com Platão é inevitável. Em A República, a comunidade de bens vale para os guardiões; em Utopia, a abolição da propriedade é universal, vinculada a uma ética do comum e à disciplina do desejo. Platão legitima uma elite filosófica; More espalha a racionalidade pela cidadania: rotatividade de cargos, eleições em vários níveis, controle social sobre os dirigentes. Onde o filósofo antigo privilegia a unidade e harmonia, o humanista renascentista cultiva a moderação: conflitos são reduzidos por desenho institucional e por educação cívica, não por unanimidade forçada.
Com Maquiavel, o contraste é ainda mais incisivo. Enquanto O Príncipe investiga como o poder se conserva num mundo de contingências, Utopia interroga para que serve o poder. Maquiavel descreve o governante que usa a força, astúcia e aparências; More propõe freios deliberativos, fiscalização e virtudes públicas. Não por acaso, seu narrador é cético quanto a cortes reais e “razões de Estado” — ironizando a política europeia justamente quando ela se laiciza.
No século XVII, Campanella e Bacon retomam o fio utópico. A Cidade do Sol radicaliza o comunitarismo com teocracia e planificação total; é um misticismo político que sacrifica esferas de liberdade em nome do saber astrológico e do bem comum. Em Nova Atlântida, Bacon imagina a “Casa de Salomão”, centro de ciência aplicada: a ordem ideal desloca-se para a tecnocracia experimental. Em More, a técnica é auxiliar de uma economia moral: desprezo ao ouro (feito penico), sobriedade dos hábitos, prioridades públicas decididas por cidadãos — não por sacerdotes-cientistas.
No século XVIII, Rousseau ecoa e corrige. Como More, denuncia o luxo e a corrupção das sociedades opulentas; mas seu alvo é a desigualdade produzida pela propriedade e pela comparação social. A virtude rousseauniana brota da participação política e da educação cívica; o contrato social não requer ascetismo permanente, mas autogoverno. Já no XIX, Marx lerá a abolição da propriedade em chave histórica: sem explicitar classes e produção, Utopia seria “igualitária”, porém não materialista. De todo modo, a ilha moreana antecipa a crítica do fetichismo: os utopienses desencantam o dinheiro ao transformá-lo em metal inútil.
Importa notar as sombras do desenho: há escravidão (para criminosos e prisioneiros), controle de mobilidade (viagens com passaporte), forte patriarcalismo doméstico e uma tolerância religiosa ampla, porém desconfiada dos ateus. Esses elementos lembram que More escreve num mundo de hierarquias e cristandade; e que nenhuma utopia está imune a custos normativos. Aqui, a crítica de Karl Popper à “engenharia utópica” é pertinente: projetos perfeccionistas tendem a justificar meios perigosos para fins sublimes; melhor a engenharia gradual, com instituições corrigíveis. Em outro registro, John Rawls recupera o espírito do experimento: ao perguntar que princípios escolheríamos “por detrás de um véu de ignorância”, aproxima-se do gesto moreano de desenhar regras sem privilégios, mas preserva direitos básicos e um pluralismo que a ilha, às vezes, apertava demais.
Por que ler Utopia hoje? Porque ela ensina um método: pôr o existente diante do possível. Em tempos de desigualdade, fadiga democrática e crises ambientais, a ilha de More provoca três exercícios. Primeiro, imaginar políticas que tornem o supérfluo politicamente dispensável — orçamentos voltados ao comum. Segundo, reconstruir rotinas cívicas (tempo, trabalho, participação) que liberem a vida do consumo incessante. Terceiro, cultivar instituições revisáveis, conscientes de que nenhuma arquitetura elimina ambição, medo ou erro.
A força de Utopia não é prometer um paraíso, mas desnaturalizar o nosso mundo. Entre Platão e Maquiavel, entre Bacon e Rousseau, entre Marx e Rawls, Thomas More ergueu um espelho que ainda cora: se uma sociedade imaginária consegue organizar simplicidade, tempo comum e justiça elementar, por que a atual, concreta, aceita tanta carência no meio da abundância? A ilha é fictícia; a interrogação é real.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto é da Academia Mato-Grossense de Letras (Cadeira 7).

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