Onofre Ribeiro
A eleição de prefeito de 2020 na maioria dos municípios de Mato Grosso foi muito pobre na compreensão dos cidadãos. Logo, também não compreendeu os eleitores. Cidadão e eleitor são irmãos gêmeos.
Em eleições anteriores falou-se casualmente, nunca com verdadeira clareza, de uma certa qualidade de vida. Entendia-se que asfalto e obras físicas dessem aos cidadãos essa tal de qualidade de vida. No entanto, 2020 foi um ano diferente, disruptivo e cobrador. Bom lembrar que no começo do ano tivemos inesperado lockdown, perda de empregos, perda de renda, doenças e mortes. Sem contar uma longa quarentena que atingiu milhares de pessoas e deu-lhes a sensação de que estavam sozinhos frente à vida.
De repente, famílias separadas pelas obrigações do trabalho passaram a conviver em casa, às vezes casas pequenas: o pai, a mãe, os filhos, o cachorro e o tempo! Pouco dinheiro. Incertezas. Principalmente incertezas! De repente, mães e pais cozinhando pra muita gente, enfrentando o dia a dia com despesas maiores em casa, mais conta de luz de água, menos dinheiro. Completamente desconhecido tudo isso. De repente, o cachorro virou um membro efetivo da família e requisitou a sua cota de atenção. E os filhos sem a escola?
Muitas mortes próximas. Muitas doenças. O olhar saiu daquela generalidade da vida familiar e doméstica de antes agora mostrou uma realidade de conflitos. Nesse mesmo ano temos a eleição de prefeito e de vereadores. Na falta de pesquisas qualitativas, os candidatos guiaram-se pelas velhas informações que viram, ouviram ou já experimentaram em eleições anteriores.
Só que desta vez o cidadão começou a tomar consciência de si mesmo, ainda que isso não tenha sido consciente. Vindo da quarentena ele quer algumas certezas que vão além do asfalto e do prédio público construído pelo prefeito. Mesmo vendendo o voto, nas camadas mais pobres, o voto tem até uma proporção: de cada três fotos vendidos, o candidato aproveita um. As pessoas estão buscando um aconchego chamado bem-estar. O covid 19 trouxe essa lição coletiva.
Por bem estar leia-se a certeza da existência de serviços públicos eficientes e presentes. Uma UPA sem dipirona não serve. Um prédio cheio de funcionários públicos caros carregando papéis inúteis agride o cidadão. Ele quer certezas dignas. Esse olhar crítico pede um conjunto de proposições novas. O segundo turno se não trouxer isso, não terá muito sentido em inovação.
As cidades são outras. Logo, quem for dirigí-las precisa estar ciente de que o seu papel será o de oferecer o bem estar. O toma-lá-dá-cá tradicional parece muitíssimo fora de moda pra um eleitor sofrido e inseguro.
Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso.
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