• Cuiabá, 06 de Abril - 00:00:00

O Kardec brasileiro

  • Artigo por Gonçalo Antunes de Barros Neto
  • 13/04/2022 08:04:10
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            Ressaltar e contar histórias de vidas que tiveram por finalidade fazer o bem é apostar na essência humana. O bem é a substância que faz da vida, sentido. E assim o foi Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, que nasceu no dia 29 de agosto de 1831 e faleceu em 11 de abril de 1900, deixando um legado para além da sua existência material.

            Começou os seus estudos em ciências médicas após o falecimento do genitor, já no ano de 1852, tendo se graduado em 1856. Para poder custear os seus estudos foi professor de algumas disciplinas como Filosofia e Matemática. Já no exercício de seu verdadeiro ‘sacerdócio’, e praticava mesmo, se mostrou caridoso, sobretudo com as pessoas menos afortunadas, com imenso carinho e dedicação especial confirmando a própria essência. A política foi consequência lógica que optou buscando ‘coroar’ de êxito o trato dos seres humanos. O também inesquecível Freitas Nobre o definiu: “a ciência de criar o bem de todos”.

            A política foi um ciclo que se iniciou e fechou para Bezerra de Menezes, tendo sido consagrado pela opinião pública pelo excelente trabalho desenvolvido. Como médico, e naquela época poucos, as famílias contavam com os “médicos das famílias”, verdadeiros heróis e abnegados. A história mais contada a seu respeito foi a de entregar o anel de formatura em medicina para que uma mãe o vendesse para comprar remédios para o filho doente. Eternizou: “Solidários, seremos união. Separados, um ponto de vista. Juntos, alcançaremos a realização de nossos propósitos.”

            Se aproximou do espiritismo ao ser presenteado com a obra “O Livro dos Espíritos”. Assim, por possuir o conhecimento de pelo menos três idiomas, traduziu obras de Allan Kardec para o português. Foi a primeira pessoa a difundir a doutrina espírita em terras brasileiras. Disse: “Lia, mas não encontrava nada que fosse novo para o meu espírito, entretanto tudo aquilo era novo para mim (...) parece que eu era espírita inconsciente, ou mesmo, como se diz vulgarmente, de nascença.”

            Menezes defendia o espiritismo na época em que a doutrina foi motivo de muita intolerância religiosa. A mediunidade era algo desconhecido e aterrorizante, filtrada por ruídos, pancadas, sons e movimentos cujas causas se desconheciam. Se na atualidade a “compreensão” para o fenômeno espiritual ainda é modesta, o que dizer e pensar no século XIX? Assim, ao mesmo tempo em que era hostilizado ao proferir curas, logrou-se amado pelos beneficiados e beneficiadas. Contudo, comissões investigativas eram formadas para analisar os fenômenos, tidos por inexplicáveis.

            Bezerra de Menezes é dessas figuras de “forma” única, barro de qualidade e único. Com o consultório sempre repleto de pessoas, era aos pobres que se dedicava. E irmanado com o destino, desencarnou pobre aos olhos materiais, mas espiritual... para ele, missão não tem preço, tem resultado e legitimidade. Após seu retorno à pátria espiritual foi necessário somar contribuições de amigos e amigas para ajudar a sua família.

            Sem qualquer dúvida, de algum lugar desse mistério todo que é a espiritualidade, ajuda mentes e corações aflitos pela desigualdade social, opressão e injustiça. Para Bezerra de Menezes, a ação pelo bem era de maior sublimidade, de maior envergadura que a religiosidade: “É melhor, às vezes, lidar com quem diz não ter religião e ama o próximo, servindo-o, do que com aqueles que se dizem religiosos, não amando o próximo e explorando-o.”

            É por aí...    

 

Gonçalo Antunes de Barros Neto é graduado em Filosofia e Direito (email: bedelho.filosofico@gmail.com).



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