Gonçalo Antunes de Barros Neto
Barão de Melgaço, começo do século XX. O tempo passava no mesmo ritmo do rio Cuiabá, que serpenteava pela vila com a lentidão de quem guarda segredos. Isidoro, um homem de mãos calejadas e olhos cansados, morava lá, envelhecendo na varanda de madeira da casa construída sobre estacas. Ouvia o estalar do assoalho como se fosse o estalar dos ossos.
Desde que sua filha Joana partiu com um boiadeiro para Corumbá e não retornou, ele criava a neta Antônia. Antônia cresceu entre remendos de sofrimento e esperança. Aos 17 anos, era uma jovem de espírito inquieto, interessada em descobrir o que havia além do rio e da vila onde todos pareciam viver o mesmo dia.
— Vô, o senhor acha que esse rio leva a gente para onde? — indagou em uma ocasião. Isidoro respondeu, mantendo os olhos fixos na correnteza:
— Leva quem está disposto a não retornar.
Na vila, cada habitante era único. Antônio Albano, o padeiro, lutava com seus filhos por um terreno próximo ao alagado. Dona Zefa, a rezadeira, havia perdido a fé há algum tempo, após testemunhar o desaparecimento do marido nas águas turvas. O padre Laurindo, que acabara de chegar de Cáceres, já mostrava mais desconfiança em relação às palavras do que aos pecados. Cada um enfrentava o invisível — a dor da perda, o medo, a incerteza ou a memória.
Benício apareceu em uma tarde quente, sob um céu de cobre. Alto, moreno, com chapéu desgastado e botas resistentes. Uns afirmavam que era de Poconé, enquanto outros garantiam que era fugitivo. Montou sua barraca próxima ao trapiche e passou a comercializar anzóis, querosene, lamparinas e causos.
Benício falava de lugares onde trens cruzavam o mundo, de ruas com luzes eternas e de um tempo mais veloz que o vento. Antônia escutava como se estivesse ouvindo música pela primeira vez. Isidoro observava de longe, com olhos de quem já presenciou promessas se transformarem em naufrágio.
— Gente que fala muito de longe às vezes esconde de onde vem — murmurou ao ver a neta encantada.
Na noite da grande enchente, quando o rio tomou as varandas e arrastou as cercas, o barco do coronel Siqueira se preparava para zarpar rumo a Cuiabá. Benício iria. Antônia foi convidada. Ela derramou lágrimas. Abraçou o avô com intensidade. E assim foi.
Isidoro permaneceu estático, semelhante a uma raiz presa à margem. Não foi um impedimento. Apenas observou a embarcação sumir na neblina, sem derramar uma lágrima.
Os anos vieram e se foram como as águas: cheias, vazantes, silenciosas. Antônia nunca retornou. Uns afirmavam que ela trabalhava em uma botica em Cuiabá, enquanto outros diziam que ela havia se casado em Corumbá.
Isidoro envelheceu até desaparecer, gradualmente. A conversa virou saudade. Após a refeição, um dia, simplesmente, não se levantou. Foi sepultado atrás da casa, sob a figueira, por padre Laurindo, Dona Zefa e Antônio Albano — os que permaneceram daquela época.
Após tempos, surgiu uma mulher carregando um menino nos braços. Carregava uma mala desgastada e tinha o olhar inquieto de Antônia. Seu nome era Joana.
— Vim em busca de histórias — afirmou. Permanecia na casa por um período. Todas as manhãs, ela se sentava com o filho à margem do rio.
— Mãe, o que existe do outro lado? — indagou o garoto. Ela olhou para o rio como se estivesse olhando para o passado.
— O restante da gente.
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) é filho do “povo do Rio abaixo”.

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