Soraya Medeiros
Outro dia deparei-me com um post que expressava aversão — física e intelectual — àqueles que optam por não assumir posicionamentos rígidos. Nesse contexto, tais pessoas são rotuladas como iletradas, como se a cautela, a escuta ou a dúvida fossem sinônimos de ignorância.
Recuso-me a pertencer a um grupo único e fechado, que coloca à margem o pensamento do outro ao deslegitimar seu ponto de vista. A pluralidade não é fraqueza; é potência.
Lembro-me de uma aula de psicanálise em que o professor afirmou: "Eu sou eu, e o outro é o outro". A frase simples carrega uma verdade profunda: cada sujeito possui sua história, seus pensamentos, suas opiniões — e está tudo bem que sejam diferentes. O aprendizado e a criticidade não nascem do isolamento, mas das relações sociais, do confronto respeitoso entre perspectivas.
É inegável que injustiças e desigualdades sociais, construídas ao longo da história, existem e são visíveis. Não se trata de negá-las ou relativizá-las. O que frequentemente negligenciamos é o sofrimento do outro: aquele que nasce do preconceito, das distâncias sociais e culturais, e até do julgamento sobre escolhas que não correspondem às nossas expectativas ou ideais.
"Eu sou eu, e o outro é o outro." Logo, minha opinião não é única, nem absoluta. Há validade no que o outro pensa, sente e escolhe conduzir. São os atravessamentos culturais que nos trouxeram, em pleno século XXI, a um mundo globalizado e profundamente rico em diversidade.
Não é pecado não ser cristão; assim como nem todo mundo é pagão. Há pessoas religiosas em todos os cantos do mundo: falam línguas diferentes, rezam orações distintas e constroem compreensões diversas sobre quem é Deus.
Há mulheres que se ocultam, e outras que se revelam. Há donzelas, princesas, bruxas, gatas-borralheiras, malvadas e feiticeiras. Nem todas sofrem — mas aquelas que sofrem, vítimas das mais variadas formas de abuso, levantam um motim social que ecoa por séculos. É uma luta diária pela legitimidade feminina, pois todas possuem uma história e se constroem a cada dia, mesmo sem compartilhar a mesma visão de mundo, seja ela moderna ou conservadora.
Toda pessoa carrega um brilho próprio e constrói seu conhecimento. Quantos povos não contribuíram para a língua portuguesa? Europeus, árabes, povos negros e indígenas. Somos muitos. Nosso sangue é fruto de cruzamentos culturais.
Talvez por isso eu não consiga ser apenas uma. Cada olhar que me atravessa encontra uma versão diferente de mim. E ainda bem. Pensamentos mudam, amadurecem, se contradizem. Eu sou muitas e não estou só. Sou filha, tia e madrinha. Carrego fé em Cristo e respeito pelos Orixás. Creio na ciência, nas ervas, na medicina da floresta que cura corpo e alma.
Não é a cor da minha pele, nem minha orientação sexual que me definem por completo. Não aceito caixas pequenas para uma existência tão vasta.
No fim das contas, volto àquela frase simples, quase óbvia: eu sou eu, e o outro é o outro. E se há algo que posso oferecer ao outro — mesmo quando discordo — é amor, escuta e respeito. Porque mexer em vespeiro sem consciência só aumenta o barulho. E o mundo, convenhamos, já anda barulhento demais.
*Soraya Medeiros é jornalista.

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