Gonçalo Antunes de Barros Neto
A vida virtuosa nunca foi um tema confortável. Ela exige mais do que boas intenções, slogans edificantes ou a estética da correção moral que domina as redes sociais. Desde a Antiguidade, a virtude é pensada menos como um discurso e mais como um modo de vida, algo que se constrói no tempo, no hábito e, sobretudo, na tensão entre desejo e limite.
Para Aristóteles, a virtude não é um dom nem uma iluminação súbita: é uma prática. Aprende-se a ser justo praticando a justiça, a ser corajoso enfrentando o medo, a ser prudente deliberando bem. A vida virtuosa, nesse sentido, não é heroica nem ascética; ela é medida. O famoso “justo meio” não significa mediocridade, mas equilíbrio conquistado por discernimento. Virtude não é ausência de conflito interno — é saber governá-lo.
O mundo contemporâneo, porém, tornou essa ideia desconfortável. Vivemos sob o império da performance, da urgência e da comparação permanente. O valor de uma vida parece depender de resultados visíveis, métricas públicas e aprovação instantânea. Nesse cenário, a virtude perde espaço para a eficiência, e o caráter cede lugar à imagem. Não se pergunta mais “quem sou?”, mas “como sou visto?”. Uma vida substituída pela vida exibível.
Há ainda um equívoco recorrente: confundir virtude com moralismo. O moralista aponta o dedo; o virtuoso examina a si mesmo. O moralismo vive da condenação alheia e da certeza de estar do lado certo; a virtude, ao contrário, nasce da consciência da própria fragilidade. Por isso, a vida virtuosa é silenciosa. Ela não precisa anunciar-se, nem transformar cada escolha em manifesto. Sua força está na coerência discreta entre princípios e ações.
Os estoicos aprofundaram essa dimensão interior. Para eles, viver virtuosamente é distinguir o que depende de nós do que não depende. Não controlamos o acaso, o reconhecimento ou o êxito, mas controlamos nossas escolhas, nossas reações, nossa integridade. Em tempos de ansiedade crônica, essa lição soa quase subversiva: uma vida virtuosa não promete felicidade constante, mas oferece liberdade interior — a rara capacidade de não ser escravo das circunstâncias.
No plano público, a virtude também se tornou palavra suspeita. Falar em virtude parece antiquado num tempo que desconfia de qualquer exigência ética mais elevada. Ainda assim, nenhuma comunidade se sustenta apenas por regras e contratos. Instituições dependem de pessoas que façam mais do que o mínimo legal: dependem de responsabilidade, lealdade, honestidade intelectual, coragem cívica. Sem essas virtudes, a vida comum degrada-se em cinismo e desconfiança.
Talvez o maior desafio atual seja este: reaprender que a vida virtuosa não é uma vida perfeita, mas uma vida responsável. Responsável por si, pelos outros e pelo mundo que se ajuda a construir, mesmo em pequena escala. Não se trata de santidade nem de pureza moral, mas de compromisso com o que vale a pena.
Num tempo que celebra o imediatismo e relativiza tudo, escolher a virtude é um gesto contra a corrente. Não rende aplausos rápidos, nem likes abundantes. Mas oferece algo mais raro: uma vida que pode ser sustentada sem vergonha quando o barulho cessa e sobra apenas o silêncio da própria consciência.
Sêneca foi preciso: “A virtude é o único bem verdadeiro; tudo o mais é indiferente ou instrumento” (Cartas a Lucílio, Carta 66). Assim, a vida virtuosa não promete felicidade constante, sucesso ou paz interior permanente. Ela promete algo mais austero e mais sólido — dignidade. A dignidade de quem vive de modo que suas ações possam ser narradas sem vergonha, mesmo quando o mundo não recompensa, mesmo quando ninguém está olhando - a virtude não torna a vida fácil, mas a torna habitável.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) escreve semanalmente neste espaço. (email: podbedelhar@gmail.com).

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