Regiane Nitsch
A posse do novo presidente da Argentina, Javier Milei, neste domingo, 10, foi marcada por mensagens populistas e atitudes consideradas audaciosas em relação aos seus predecessores democráticos dos últimos 40 anos. Ao invés de se dirigir à Assembleia Legislativa, Milei escolheu falar aos seus seguidores nas escadas do Congresso, denotando certa cisão em relação à classe política tradicional a qual ele rotula como "casta".
Configurando uma medida nepotista, indicou sua irmã como chefe do Poder Executivo argentino, ou seja, como secretária-geral da Presidência. Para tanto, emitiu um decreto que modificou a regra estabelecida durante o governo do ex-presidente Mauricio Macri, a qual proibia a nomeação de parentes para cargos na administração pública. Na sequência, Milei empossou seus nove ministros após assumir a presidência, dissolvendo outros noves ministérios, enfatizando a austeridade que deve balizar seu governo desde o primeiro momento.
O novo presidente advertiu que será "firme" na promoção de reformas destinadas a estabelecer um "novo contrato social" no país. Milei foi enfático na implantação de um ajuste fiscal correspondente a cinco pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB). Recaindo principalmente sobre o Estado e poupando o setor privado, Milei rejeita o gradualismo para sua reforma econômica.
Com poucos recursos estatais, o novo presidente deve adotar políticas de austeridade econômica em seu governo, com alto custo à população argentina. Aliás, ele anunciou um período de dificuldades com impactos negativos em diferentes setores, nas atividades econômicas em geral, no próprio emprego e na pobreza e indigência, que devem aumentar. Milei chegou a prever um período de "estagflação" - estagnação da economia e inflação alta. Não será um período fácil à população argentina.
Após diversas declarações ao longo de sua campanha política que tencionaram as relações com o Brasil, Lula foi representado pelo chanceler Mauro Vieira no momento da posse. O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro compareceu e fez uma tentativa de aparecer na foto oficial do presidente argentino. Bolsonaro foi impedido após objeções manifestadas por outros líderes sul-americanos, como Luis Lacalle Pou, do Uruguai, Santiago Peña, do Paraguai, Daniel Noboa, do Equador, e Gabriel Boric, do Chile, que compareceram ao evento, detonando certa estabilidade nas relações com os países da região.
Sendo um outsider na política tradicional argentina, Milei terá que flexibilizar, dialogar e negociar internamente para conseguir alguma governabilidade e apoio no Congresso. Possivelmente, ele deverá buscar apoio junto à direita mais conservadora, de Macri e Patricia Bullrich.
No âmbito internacional, relações diplomáticas estáveis, comércio exterior e investimentos estrangeiros poderiam ajudar o país a superar a crise econômica. Contudo, sendo uma figura excêntrica e de extrema direita, desafios e receios devem permear as relações com a Argentina por um longo período.
Regiane Nitsch Bressan é professora de Relações Internacionais da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen/Unifesp) – Campus Osasco, e do Programa Interinstitucional (Unesp, Unicamp e PUC-SP) de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas. É doutora e mestra em Integração da América Latina pela USP e integra o Observatório de Regionalismo, Gridale, Fomerco e Cries.

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