Soraya Medeiros
Há dias em que acordamos leves. O café parece mais quente, o céu mais azul, e a vida, curiosamente, faz sentido. Em outros, levantamos com um peso no peito, sem saber exatamente o porquê. É nesses contrastes tão humanos que, quase sem perceber, surge a pergunta: onde está Deus quando estamos felizes? E onde Ele está quando a tristeza nos alcança?
Vivemos em um tempo que celebra a alegria como regra e trata a dor como desvio. Ser feliz virou meta, obrigação, desempenho. Tristeza, por sua vez, parece algo a ser rapidamente corrigido, silenciado ou escondido. Talvez por isso tantas pessoas associam a presença de Deus apenas aos momentos bons, como se o sagrado tivesse aversão ao sofrimento.
Mas a vida não é linear. Ela oscila. Em alguns dias, estamos felizes; em outros, apenas seguimos. Emoções vêm e vão. E, com elas, aprendemos — ou deveríamos aprender — que Deus não se move conforme nosso humor. Ele não chega quando sorrimos nem se retira quando choramos. Sua presença atravessa tudo.
Quando a alegria aparece, é natural senti-la como bênção. A gratidão aflora, o coração se expande, e a fé parece mais simples. É fácil reconhecer Deus quando tudo vai bem. Difícil, talvez, seja percebê-lo quando o silêncio se impõe, quando a dor desacelera o ritmo e nos obriga a olhar para dentro.
A tristeza, embora desconfortável, tem algo de revelador. Ela desmonta nossas certezas, expõe fragilidades e nos lembra que não controlamos tudo. Não é que Deus seja a tristeza — não é isso. Mas é nela, muitas vezes, que encontramos abrigo, escuta e amadurecimento. Como se, ao cairmos, descobríssemos um chão que sempre esteve ali.
Talvez a chave esteja na diferença entre ser e estar. Emoções são estados: estamos felizes, estamos tristes. Mas não somos apenas isso. Existe algo em nós que permanece, apesar das circunstâncias. Um núcleo mais profundo, silencioso e estável. É nesse espaço — no ser que sustenta todo estar — que tantas tradições reconhecem a morada de Deus.
A cultura da felicidade permanente nos empobrece quando nega essa complexidade. Uma espiritualidade mais honesta aceita que alegria e dor caminham juntas e que ambas podem ensinar. Não se trata de buscar sentimentos elevados, mas de viver com consciência aquilo que a vida apresenta.
Talvez, então, a pergunta não devesse ser onde Deus está em cada emoção. Talvez a resposta esteja em reconhecer que Ele habita a inteireza da experiência humana. No riso e no choro. Na luz e na sombra. No ser que permanece, mesmo quando o estar vacila. E isso, de algum modo, consola.
*Soraya Medeiros é jornalista.

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