Oscar Soares Martins
Os municípios brasileiros estão, hoje, entre os alvos mais vulneráveis dos crimes cibernéticos. Prefeituras de todos os portes sofrem ataques rotineiros, muitas vezes silenciosos, outras vezes devastadores, que comprometem sistemas, paralisam serviços essenciais e expõem dados pessoais de milhões de cidadãos. O problema não é mais “se” o ataque vai acontecer, mas “quando” — e, sobretudo, como a gestão pública estará preparada para enfrentá-lo.
Dados cadastrais, informações fiscais, prontuários de saúde, dados educacionais e registros financeiros são ativos extremamente valiosos no mercado ilegal. Quando uma prefeitura é invadida, não é apenas um sistema que cai: é a confiança do cidadão que é violada. CPF, endereço, telefone, histórico médico e informações tributárias passam a circular nas mãos de terceiros, muitas vezes sendo usados para fraudes, extorsões e outros crimes.
Casos de ataques de ransomware que deixaram sistemas municipais fora do ar por dias, vazamentos massivos de dados de usuários de serviços públicos e invasões a empresas municipais de tecnologia já se tornaram frequentes no noticiário nacional. Em muitos deles, a causa se repete: ausência de políticas de segurança, redes sem segmentação, sistemas terceirizados sem auditoria adequada, inexistência de backups resilientes e falta de monitoramento contínuo. Os exemplos se espalham em todo Brasil e infelizmente, a conscientização dos gestores não acompanham o crescimento vertiginoso dos ataques cibernéticos e os enormes prejuízos causados pela negligência de tomada de decisão de enfrentamento ao grave problema.
O impacto não é apenas técnico. Há consequências jurídicas, administrativas e políticas. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) impõe responsabilidades claras ao poder público. O gestor que ignora a proteção da informação assume riscos reais de responsabilização, além de danos reputacionais severos à administração. A omissão, hoje, não pode mais ser justificada por desconhecimento.
Para o cidadão, o prejuízo é direto. Ele não escolhe onde seus dados são armazenados, mas é quem paga o preço quando esses dados são expostos. Perde-se segurança, privacidade e, em muitos casos, a própria capacidade de acessar serviços públicos básicos.
É preciso dizer com clareza: investir em cibersegurança não é gasto supérfluo, nem luxo tecnológico. É infraestrutura essencial, tão crítica quanto saúde, educação e saneamento. Soluções de proteção de dados, controle de acessos, criptografia, gestão de identidades, firewalls avançados, centros de monitoramento (SOC) e planos de resposta a incidentes não são opcionais — são requisitos mínimos de uma gestão responsável.
Prefeitos e gestores públicos precisam tratar a segurança da informação como política pública permanente, e não como reação emergencial após um ataque. A pergunta que deve guiar as decisões é simples: quanto custa proteger os dados do cidadão hoje, comparado ao custo político, jurídico e social de um vazamento amanhã?
A cibersegurança municipal é, antes de tudo, uma questão de governança, responsabilidade e respeito ao cidadão. Ignorar esse tema é abrir as portas para o caos digital — e ele já está acontecendo.
Oscar Soares Martins é especialista e consultor em cibersegurança e em IA.

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