Paulo Lemos
Durante séculos, a vida em comunidade foi sustentada — ao menos no plano simbólico — por vínculos, valores compartilhados e alguma ideia de pertencimento.
Mesmo atravessadas por conflitos e desigualdades, as sociedades carregavam a noção de que a queda não anulava, por si só, o direito de existir no laço social. Cair não significava desaparecer.
Esse princípio foi profundamente corroído. Hoje, a medida do valor humano já não é o vínculo, nem o caráter, nem a singularidade, mas o capital.
O dinheiro tornou-se o rei soberano das relações. É ele quem media o reconhecimento, regula a proximidade, define quem merece escuta, respeito e lugar. Não atua apenas como instrumento econômico, mas como poder simbólico absoluto, diante do qual sujeitos e grupos se organizam — ou se submetem.
Nesse regime, o dinheiro não apenas compra coisas: compra pertencimento. Quem tem, circula. Quem perde, é silenciado. Os descapitalizados tornam-se os leprosos contemporâneos.
Não porque sejam perigosos, mas porque denunciam uma verdade incômoda: o sucesso é instável, a segurança é frágil e ninguém está definitivamente protegido. Por isso, são mantidos à distância.
A soberania do dinheiro impõe ainda uma cultura de exclusão mais refinada. Não basta existir; é preciso parecer igual. Quem ousa ser diferente — não por carência, mas por valores — passa a ser visto como ameaça.
A recusa ao exibicionismo, ao consumo compulsivo e à competição permanente é lida como inadequação. A diferença ética se torna suspeita.
Forma-se, assim, uma divisão silenciosa. De um lado, a liberdade de ser diferente sem ser excluído — cada vez mais rara. De outro, a prisão da servidão do ter, em que o sujeito precisa possuir, ostentar e competir para continuar sendo aceito.
No primeiro caso, o valor não tem preço. No segundo, a aceitação social cobra pedágio constante. Quem não paga — por impossibilidade ou por recusa — é empurrado para as margens.
Essa lógica produz um sofrimento profundo e pouco visível. O sujeito aprende que existir plenamente custa caro. Aprende a se calar para não incomodar, a reduzir seus desejos para não destoar, a esconder a dor para não ser descartado.
A vergonha substitui a dor legítima. O silêncio substitui o pedido. A vida vai se estreitando sem que seja necessário um gesto explícito de exclusão.
Não se trata de negar a importância do trabalho, da responsabilidade ou da autonomia. Trata-se de denunciar uma inversão ética central: quando o dinheiro se torna o mediador soberano de todas as relações, a dignidade deixa de ser direito e passa a ser prêmio.
O reconhecimento vira mercadoria. O valor humano se confunde com preço. Os leprosos de ontem eram afastados por medo do contágio. Os de hoje são afastados por medo do espelho.
Sua existência revela a violência de um sistema que confunde ser com ter, liberdade com consumo, pertencimento com desempenho.
Enquanto aceitarmos essa soberania sem questionamento, continuaremos produzindo excluídos — não apenas pela falta de dinheiro, mas pela recusa em se submeter à servidão do ter para poder ser.
Talvez a questão decisiva do nosso tempo não seja econômica, mas ética: queremos uma sociedade em que a diferença seja sinal de liberdade ou uma em que a aceitação dependa da obediência ao rei dinheiro?
Enquanto essa pergunta não for enfrentada, os descapitalizados continuarão carregando a marca da nova lepra — a exclusão travestida de normalidade.
*Paulo Lemos é advogado em Cuiabá e Mato Grosso.

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