Gonçalo Antunes de Barros Neto
Sempre acreditei que o retorno, antes de ser um andar pra trás, é busca das origens, dos reencontros e até da confirmação de um erro, logo que desnudado. Um olhar sobre o ombro, cargueiro de tantas experiências, ilusões e sonhos. Retornar pode ser, também, encarar a realidade como posta, do ponto até então abandonado. Sair de um estado mental que se vive, para o vivido, retomando-o. Neste último sentido, ensaio as linhas a seguir.
Ao sairmos de férias estamos sempre dispostos a esquecermos, ainda que temporariamente, das coisas do nosso dia a dia – trabalho, preocupações domésticas, política local etc.-. Apressados, caminhamos para o lazer. A poética ‘Bom tempo’, de Chico Buarque, retrata: ‘Dou duro toda semana/Senão pergunte à Joana/Que não me deixa mentir/Mas, finalmente é domingo/Naturalmente, me vingo/Eu vou me espalhar por aí [...] Ando cansado da lida/Preocupada, corrida, surrada, batida/Dos dias meus/Mas uma vez na vida/Eu vou viver a vida/Que pedi a Deus’.
Mas a contradição (Opa! Sempre ela a nos ensinar!) indica-nos, dias após o começo do esperado lazer, um surpreendente confronto de ânimo pela saudade do corre-corre característico do trabalho. Ou o ócio nos faz inquietos ou, ao contrário, nos obriga à reflexão. E pensar não é fácil, não! Acostumados com a máquina corporal, sofisticada, mas néscia, que não prescinde de regular lubrificação, a preguiça intelectual faz escola.
No ócio que a alma é castigada, pois, como atender a Sócrates (conhece a si mesmo) sem dar vazão ao pensamento? É nessa dialética interior que nos brindamos com as imagens que retratam o cotidiano de cada um: com seus acertos, o que é de júbilo, com seus erros, o que é colérico. Agigantamos e apequenamos num vai e vem frenético do mais puro julgamento, o da consciência.
Na advertência de Chaplin – ‘não sois máquinas, homens é que sois’- se sintetiza o horizonte humanístico. O corre-corre diário a que nos submetemos, ou somos submetidos, embrutece, mata a essência do que nos reveste. Não nos damos conta disso. Então, como máquinas embrutecidas, logramos esquecer os pecadilhos na ostentação corporal ou pelo cansaço laboral - fácil e menos traumatizante do que pensar, refletir. E vamos repetindo desde o poeta romano Juvenal que ‘mens sana in corpo sano’. Aliás, até a mais valia se apodera disso quando impôs a pérola de que o trabalho dignifica o homem. Dignifica o homem ou o bolso de quem escraviza? Ainda dizem não haver altercação entre o capital e o trabalho. Pobre de nós!
Retorno para o trabalho e deixo para mais um final de primavera as minhas angústias. Nem a elas me submeto quando o lombo me é castigado. Para trás ficam as belezas desse mar de Maceió e dos encantos de Patacho. A reflexão me foi imposta somente em sentir o cenário. Não me sinto mais leve de quando por aqui estive. Seus frutos, não só os comestíveis, mas, também e principalmente, os que inquietam, me fizeram mais gordo. Gordo de decência interior, a mesma que faz pesado o sentir pelos que aqui nunca estarão.
Devolvo a minha verve poética aos saborosos prazeres do esquecimento, que o STF diz não ser possível; afinal, não me querem máquina?
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto tem formação em Filosofia e Direito, sendo autor da página Bedelho. Filosófico e escreve aos domingos em A Gazeta (email: bedelho.filosofico@gmail.com).

Ainda não há comentários.
Veja mais:
CNU2: resultado preliminar das vagas reservadas já pode ser consultado
PC confirma prisão de mulher acusada de integrar facção em MT
Operação da PM derruba garimpo irregular em zona rural
IBGE prevê safra recorde de 346 milhões de toneladas em 2025
TJ: reserva para moradia não impede penhora em caso de dívida
Suspensão indevida do seguro: TJ manda indenizar por roubo
TJ decide: venda sob pressão anula contrato e gera indenização
O Agro além do Mito!
Os desafios do aluguel por temporada X falta de segurança e sonegação: o custo invisível para a sociedade
Exclusividade Fotográfica em Formaturas: Entre a Organização do Evento e os Direitos do Consumidor