Lourembergue Alves
A legislação eleitoral brasileira carece de retoques, de aperfeiçoamento. Aperfeiçoá-la para diminuir a desigualdade da disputa. Desigualdade que seria também reduzida se os partidos políticos fossem fortes, e, uma vez fortes, deixariam de ser apenas locais para se carimbar o passaporte para alguém ser candidato.
A Justiça mais ágil e rigorosa ao julgar os que cometem crimes eleitorais. Soma-se a isto, a formação política da população, cuja inexistência faz crescer a quantidade de leitores-torcedores, uma espécie de “curral eleitoral” modernizado. Retrato que precisa ser retirado da sala de estar do país. Retirado de vez, não simplesmente trocado, substituído por outro de igual essência. Substituir e trocar são verbos, a exemplo do retirar. Portanto, ações. Mas, a despeito do transitivo direto, que cada qual o é, este último tem ação bastante distinta daqueles. E, para acioná-lo, exigem-se, inicialmente, medidas que possam possibilitar-lhe o ingresso no cenário político. Medidas disciplinadoras, moralizadoras.
Uma dessas medidas é disciplinar a entrada de juiz aposentado no jogo. Disciplinamento que passa por uma quarentena de oito anos, e só depois sair para a disputa eleitoral, até para impedi-lo de usar a magistratura, a vara e a instância como instrumentos para seduzir eleitor e conquistar votos. Igual regra deveria ser exigida para delegados, integrantes dos Ministérios Públicos, da Defensoria, dos Tribunais de Conta, das Forças Armadas e das Polícias Militar e Civil. Medida que se estenderá para secretários municipais e estaduais e ministros. Todos eles, caso queiram sair para a disputa, se sujeitariam primeiro a quarentena de oito anos. Tempo do mandato de Senador.
Aliás, nesta mesma esteira, não se pode perder de vista outra medida, salutar e necessária: a migração de um parlamentar para o Executivo, e tal migração só seria permitido com a renúncia do cargo que lhe fora concedido pelo eleitorado. Isto moraliza a situação vivida, ainda que seja legal, e acaba com as farras até agora existentes. Farras, cuja vitrine só dá visibilidade para alguns, em detrimento de uma maioria de candidaturas.
O fim delas, dessas farras, por certo, diminuirá a desigualdade da disputa. Diminuição que também ocorrerá quando se adotar um prazo maior para que o jornalista, apresentador deixe o programa de rádio ou de TV. Prazo de um ano antes da eleição, embora se saiba que este profissional dependa do seu trabalho para sustentar a si próprio e a sua família.
Por falar em dilação de prazo, vale acrescentar outro, o de filiação partidária. O mínimo de quatro anos de filiação para que o filiado venha sair candidato tanto para o Legislativo quanto para o Executivo. Mínimo de tempo para que cada agremiação política possa melhor preparar seus quadros, e apresentar uma lista de candidatos mais qualificados, e ciosos do conteúdo de seu estatuto.
Diferentemente de agora, com a imensa maioria dos filiados, senão quase todos, inclusive de gente que já ocupou e ocupa cargos nos diretórios, sequer, se debruçou sobre os dizeres do estatuto. Estatuto que é o coração, o pulsar da sigla política, ainda que nos dias de hoje, agredido a todo instante, sem que haja uma investigação e punição do agressor. Virou uma bagunça generalizada, com o filiado, mesmo em cargo eletivo, em apoio do candidato adversário ao do seu partido.
O imoral e o ilegal de mãos dadas e entrelaçadas. Ainda que negados. Negados sem, contudo, esconder os fatos. Fatos que escancaram a imoralidade e ilegalidade. Mas, de tanto conviver com uma coisa, já não a veem como anormal, fora do correto, do adequado. Tal como a situação privilegiada de algumas pessoas no campo político. Situação que lhes dá mais visibilidade, maior vitrine, melhor condição de conquista de votos; ao passo que a imensa maioria, fica a ver navios, levada de roldão pelas águas da desigualdade de condição na disputa eleitoral. É isto.
Lourembergue Alves é professor universitário e analista político.

Ainda não há comentários.
Veja mais:
Pesquisa: cesta básica recua na terceira semana de janeiro
O Brasil e o mundo para 2026: ordem global e caos interno
O despertar do Santo Graal: Por que buscamos fora o que só pode ser encontrado dentro!
Janeiro Branco: a solidão da mulher madura — invisibilidade ou oportunidade?
CNU2: resultado preliminar das vagas reservadas já pode ser consultado
PC confirma prisão de mulher acusada de integrar facção em MT
Operação da PM derruba garimpo irregular em zona rural
IBGE prevê safra recorde de 346 milhões de toneladas em 2025
TJ: reserva para moradia não impede penhora em caso de dívida
Suspensão indevida do seguro: TJ manda indenizar por roubo