Vivaldo Lopes
O elevado sentimento de pânico e ojeriza ao risco que toma conta dos mercados financeiros do mundo inteiro está proporcionando verdadeiro cavalo de pau nos rumos da economia mundial. O ano começou com otimista expectativa de crescimento acima de 3%. Antes de completar o primeiro trimestre já se torce para não terminar com desempenho da atividade econômica próximo de zero. A tsunami que atropelou o mundo tem nome: coronavírus. A doença que surgiu como um surto no interior da China, tomou o mundo e se transformou em pandemia de dimensões sanitárias e econômicas ainda não dimensionáveis. A pandemia afetou diretamente os pulmões dos três grandes motores econômicos do mundo: Ásia (China, Japão, Coréia do Sul, Índia), União Europeia e Estados Unidos. A forma inesperada como surgiu e a velocidade de sua propagação surpreenderam a todos, desde as autoridades da área de saúde, como lideranças políticas e executivos das maiores corporações do planeta. Até que a doença seja controlada com ações profiláticas e reativas até o desenvolvimento de uma vacina, terá causado tão profundos estragos na economia global que farão de 2020 ser lembrado como um ano perdido sob o ponto de vista econômico.
Inicialmente todos os analistas econômicos, políticos e empresariais entenderam tratar-se de doença que seria controlada e domada em questão de meses, com efeitos passageiros sobre a estrutura produtiva mundial, cujos estragos seriam recuperados nos trimestres seguintes. Os fatos atropelam as projeções e estão a demonstrar o contrário. A metodologia recomendada no combate da doença preconiza o distanciamento social, fato que praticamente paralisa as atividades produtivas em todos os setores e todas as cadeias produtivas ao contrair a movimentação de pessoas, mercadorias e suprimentos. Isso produz um perverso efeito dominó sobre a produção, faturamento das companhias, consumo das famílias e no mercado de trabalho.
Repete-se no Brasil o mesmo roteiro de filme de terror. Começamos o ano com estimativas de crescimento de 2,5%, após um 2019 de crescimento pífio. Antes que as águas de março fechem o verão já se tem como certo um primeiro semestre perdido. O país começa agora uma corrida para tentar salvar o segundo semestre na esperança de evitar que terminemos 2020 com PIB estagnado abaixo de zero. No campo político o país demorou demasiadamente a reconhecer a dimensão e a gravidade do problema o que inibiu ações de políticas econômicas anticíclicas que a situação exigia. Finalmente, nesta semana o ministro da Economia anunciou um conjunto de medidas para estimular o consumo das famílias e injetar liquidez ao caixa das empresas para enfrentarem a travessia do deserto financeiro que surge à frente. Na parte monetária, o Banco Central anunciou medidas autorizativas para os bancos alongarem dívidas de pessoas e empresas. Ao final da tarde de ontem, quarta feira (18), anunciou também a redução da taxa Selic anual de 4,25% para 3,75%. Havia expectativa de redução para 3,25%.
Considero tímidas e tardias as medidas fiscais do Ministério da Fazenda e as monetárias do Banco Central. Ressalve-se que a degradante situação fiscal da administração federal reduz muito a capacidade de injeção de liquidez no mercado. Apenas à guisa de comparação, diante da crise financeira mundial de 2009, a administração federal também tomou medidas para estimular o reaquecimento da economia, mesmo que, equivocadamente, o então presidente Lula tenha dito que a crise era apenas uma “marolinha”. As medidas deram propulsão especial ao consumo das famílias e das empresas. Os resultados pareceram somente em 2010 quando o PIB cresceu 7,5%. Mas a situação fiscal do país era bem melhor. Em 2008 o superávit primário foi de R$ 118 bilhões e as reservas cambiais estavam na casa de US$ 371 bilhões, o que permitiu ao tesouro nacional subsidiar crédito para o consumo por meio dos bancos federais, BNDES, Caixa Econômica e Banco do Brasil. O erro daquela ocasião foi ter mantido essa política de gastança permanente quando deveria ser transitória.
Em 2019 o país teve déficit primário de R$ 95 bilhões. Esse déficit já foi um grande feito diante da previsão inicial de R$ 139 bilhões e dos R$ 120 bilhões de 2018. Além da situação fiscal deficitária, temos a emenda constitucional do teto de gastos que atua como uma rigorosa trava orçamentária mesmo em situações de crise como a que o país enfrenta.
O Banco Central poderia ousar mais, sem risco de perder o controle da inflação, na flexibilização monetária para estímulo ao crédito como também na questão cambial, utilizando-se da sólida reserva cambial de US$ 360 bilhões.
Resta acompanhar e torcer para que as medidas anunciadas tenham a eficácia que todos aguardamos na mitigação dos efeitos da crise nessa fase de combate intensivo à doença.
Vivaldo Lopes é economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP (vivaldo@uol.com.br)

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