Lourembergue Alves
No dia seguinte, antes do Sol se esconder, e, em seu lugar, surgir a Lua, as três pessoas se reencontraram. O filho era o mais entusiasmado. O pai nem tanto, pois tinha o semblante meio pesado, talvez por conta do olhar brilhante do próprio filho, o que lhe causou certo ciúme, e, ele, mais do que depressa, tentou-se disfarçar, esconder o que não dava para ser escondido. Já o irmão, fingiu nada ter percebido, e, como sempre fazia, deu um forte abraço no irmão, e outro mais forte no sobrinho, pois o tinha como filho que não pudera ter. E, antes que os olhos se enchessem de água, foi logo dizendo, assim que se acomodou a uma das cadeiras expostas na sacada: “Debate ou discussão não é uma briga, nem um bate-boca. Ainda que se valham dos mesmos espaços”.
Olhava ora para o irmão ora para o sobrinho, enquanto falava. “Os espaços não são determinantes, tampouco tornam iguais o debate e o bate-boca”. O garoto não piscava. Evitava perder cada palavra, cada gesto do tio. Gestos e palavras se completavam. “Debate e bate-boca são completamente distintos” – repetia-se. “Aquele pode se tornar um bate-boca, mas este jamais se fará passar por um debate”. O sobrinho sorria, enquanto o pai esfregava uma mão na outra, visivelmente impaciente, irrequieto. O irmão prosseguia: “no bate-boca, as pessoas se agridem mutuamente, ao passo que numa discussão, os interlocutores atacam as argumentações, as afirmações ou as teses levantadas”. “Mas...” – balbuciou-se o garoto. “Calma, filho!... Esperemos” – conseguiu dizer o pai, que via o irmão de soslaio. “Sabe” – continuava o tio – “Devem-se procurar as brechas na argumentação, as falhas na sustentação de uma ou de outra tese” – uma parada proposital, até para observar melhor a reação gestual do sobrinho. “E encontradas, procurar desconstruir uma a uma das frases, das argumentações, com o fim de desconstruí-las”. “Ah!...” – deixou-se escapulir o garoto, diante do sorriso acanhado do pai. “Desqualifica--se a argumentação, jamais a pessoa de seus interlocutores” – emendou-se o tio. “Não é isso que se vê comumente” – observou o garoto. “Verdade...” – dizia o tio. “O ganhador de um debate é aquele que consegue desequilibrar o adversário” – ponderou o pai. “E só se desequilibra com ataques pessoais...” – continuava o pai, sob o olhar incrédulo do irmão e a feição incompreendida do filho. “Veja em um debate entre os candidatos...” – silenciou-se por um instante. “Um candidato procura deixar o outro em maus-lençóis...” – nova parada. “Isto é tática de desqualificação... O telespectador vibra, adora” – concluiu-se.
“Este é o problema...” – observou o irmão. “Ah!...” – voltou a balbuciar o garoto. “Por que?” – questionou-lhe o irmão. “Debate não é bate-boca...” – respondia o tio. “Atacar as pessoas é próprio de um bate-boca, jamais de um debate” – tentava explicar. “Por outro lado, o papel do telespectador deve ser sempre o de cidadão...” – prosseguia ele. “A política é um espetáculo, e como todo espetáculo, tem-se a presença de um público...” “Claro... Isto é óbvio” – interrompeu-lhe o irmão. “Sim... Mas...” – murmurou o tio. “Então!...” – insistia o pai.
Um silêncio. Olhares se cruzavam. Parecia outro aquele ambiente. Ouvia-se o cair dos pingos da chuva, que molhava as beiradas da piscina, enquanto as águas desta borbulhavam-se, a exemplo do que se via com o líquido aquecido na chaleira. O latido do cão quebrou o silêncio. Pai, filho e sobrinho se ajeitaram as cadeiras. Acomodavam-se. Neste mesmo instante, o arco-íris se fazia presente. A Lua se mostrava timidamente. O tio e irmão, por fim, falou: “Já chegou a minha hora... Tenho que ir...” “Ainda está cedo, titio... Fique mais um pouco”. O tio sorria. Titubeava-se. “Sei... Mas, realmente, preciso ir... Já passam das 23 horas...” “Ah!...” – começava a falar o pai. “Infelizmente, tenho que ir... Amanhã, levantarei bem cedo...” “A nossa conversa ainda não acabou...” – chamou a atenção o garoto. “Sei disso...” – concordou o tio. “Então...” – provocou o pai. “Terminaremos essa nossa conversa em outra oportunidade... Podem ficar certos disso” – dizia no instante em que se dirigia a porta. “Continuaremos”. É isto.
Lourembergue Alves é professor universitário e analista político. E-mail: Lou.alves@uol.com.br.

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