Lourembergue Alves
Era a última sexta-feira do ano, e também o derradeiro de uma jornada. O Sol acabara de surgir, enquanto a Lua, acanhadamente, abandonava seu posto. Não havia mais a escuridão da noite, mas sim a claridade do dia. Bem cedinho, e o Luiz já se encontrava todo arrumado. Aguardava a hora certa, apontada pelo velho despertador, presente de um tio meio distante, mantido sobre a mesinha do escritório. Folheava algumas anotações em um punhado de folhas, e se deixou envolver por antigos caminhos, de íngremes quase imperceptíveis. Mesmo para ele, já calejado com aquela face do país, cheio de nuances e armadilhas próprias da situação. Ora sorria, ora franzia a testa, depois se deixou levar pelas ondas da nostalgia, com a doce voz do pretérito a assobiar-lhe aos ouvidos. Uma gota de um líquido, mais uma e outra lhe umedeceu os olhos, e estes, ainda que turvos, conseguiram visualizar a mulher do porta-retrato. Ela tinha os cabelos esbranquiçados pelo tempo a cair por sobre seus ombros, os quais estavam cobertos por uma blusa de linho xadrez, cujas listas pretas se destacavam, em consonância com a cor da pele de seu rosto, meio arredondado e de traços grossos, com o nariz largo. Enfim, o barulho do marcador das horas, despertou Luiz, totalmente envolto as imagens e som do passado. Levantou-se da cadeira, enxugou os olhos, penteou os cabelos e rumou-se porta-fora.
Uma hora depois, adentrava-se a sala, onde os mesmos rostos, joviais e sorridentes, já o aguardavam. Cumprimentou a todos, e pediu-lhe que fizessem uma roda de cadeiras. Duas ou três cadeiras vazias foram ocupadas, com a chegada dos atrasados. Um deles, talvez como pedido de desculpas, resolveu puxar conversa. Falou do crescente índice da corrupção no país, e, com o olhar fixo no Luiz, indagou-lhe: “o que nos espera, professor?” Luiz devolveu a indagação ao grupo. Jô, mais extrovertida, brincou: “ainda tem vaga no trem noturno”. “To fora” – precipitou-se Afrânio, um jovem de costume igrejeiro. “To dentro” – balbuciou-se João. “Ah!... Lá deve ser melhor do que cá” – ironizou Maria, de estilo hippie. O que arrancou uma gargalhada de Joana. “Não mesmo” – conseguiu dizer Afrânio, já meio irritado com o rumo da prosa. Joaquim, então, caçoou: “Não se irrite, Afrânio. Fora daqui costuma não se encantar facilmente com a simples aparência”. Joana gargalhou-se de novo. “Eles não se deixam levar por qualquer bizarrice, caro amigo” – falou Carlos, com uma das mãos no ombro de Afrânio. Este tentou se esquivar, mas Beatriz o impediu de fazê-lo. “Gente, gente! – intervinha-se Luiz. Todos o olharam. “Sobre o que mesmo estamos conversando? – perguntou a todos. “Sobre o que nos espera, professor” – respondeu-lhe Beatriz. “Claro que não...” – tentava dizer Afrânio, quando foi interrompido. “É sim...” – confirmou João. “Não se tem futuro com a intolerância presente” – observou Maria. “Tem gente que discorda disso” – asseverou Joaquim. “Discorda de que? – perguntou Carlos. “De que a intolerância seja um mal” – afirmou Joaquim. “Por isso, eles aplaudem os intolerantes, suas agressões” – concordou Carlos. “Porque, pra eles, o que conta mesmo é a sua visão de mundo” – acrescentou João. “Até Jesus foi intolerante com os responsáveis pelo comércio no templo” – falou Afrânio. “Mas jamais fora com Madalena” – antecipou-se Beatriz. “Essa é uma grande lição, o de sempre respeitar o diferente e a diferença”- falou entusiasticamente Maria. “Gente, tudo isso é importante... Mas o que vocês fizeram com o assunto proposto?”– indagou-lhe Luiz. “Qual? – quis saber Beatriz. “O assunto proposto por Jânio foi bem outro. Nada tem a ver com intolerância, mas sim com corrupção”. “Ah!... A Lava-Jato está limpando a corrupção do país” – afirmou João. “Será? – indagou-lhe Luiz. “Não? – devolveu a pergunta João. “Não...” – antecipou-se Carlos – “Políticos e empresários foram presos” – completou. “Mas... e a corrupção praticada pelos agentes da Operação?” – quis saber João. “E a de dentro do governo?” – provocou Maria. “Você está querendo demais... Só vale combater a corrupção praticada pelos adversários políticos, jamais as dos parceiros” – ponderou Joaquim. Todos, então, sorriram. Sorriram meio sem graça, pois estavam diante de grande verdade. Verdade tanto do passado quanto do presente, sem a ilusão refletida a um espelho ou porta-retrato. É isto.
Lourembergue Alves é professor universitário e analista político. E-mail: Lou.alves@uol.com.br.

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