Wellington Anselmo Martins
A eleição de Donald Trump é o ápice da subida da direita ao poder mundial. Esse magnata republicano, como presidente dos EUA, é a última variável que faltava para que pudéssemos solucionar a atual equação histórica e concluir: estamos iniciando um abrangente ciclo de direita, em alguns aspectos até de extrema-direita, aqui no Ocidente.
A chamada “maioria silenciosa” de eleitores, difícil de detectar por meio de pesquisas de opinião, novamente fez muito barulho e possibilitou a ascensão da direita. Por isso, os EUA, a partir dessa eleição, vão ser causa de repúdio não mais só da extrema-esquerda, mas também da centro-esquerda mundo afora. Ou seja, com Trump à frente, os EUA agora se tornaram uma caricatura de si próprios.
No entanto, apesar de dono de absurdos belicistas como: “Sou muito bom em guerras; eu amo as guerras, incluindo as armas nucleares”, e ainda gritos antidemocráticos como: “Prometo aceitar o resultado dessa eleição somente se eu vencê-las”, o novo presidente do país mais poderoso do mundo é mero populista mentiroso, um “oportunista”, como categorizou o filósofo esloveno Slavoj Zizek. Para Zizek, o “real perigo” era a vitória de Hillary Clinton, pois esta, sim, não precisava de novos acordos para representar os interesses do establishment americano (o que inclui o intervencionismo e imperialismo).
De outro lado, líderes como o Papa Francisco, diferentemente do crítico esloveno, opõem-se publicamente à postura extremista de Trump. Francisco, inclusive, não absolveu a ideia de Trump, de separar com muros os EUA e o México, e por isso declarou: “Uma pessoa que pensa em construir muros em vez de pontes não é uma pessoa cristã”. Ora, já era esperado, por quase todos os especialistas em política, que a violência “pragmática” de Trump, bem à la Frank Underwood, seria indigesta para todos. Mas, o inesperado aconteceu. E agora, assombrado, o mundo tem de assistir a escolha feita pelo povo americano.
Porém, mesmo diante da nova ascensão mundial do nacionalismo, conservadorismo e xenofobia, sabemos que o mar da política não se agita apenas de um lado. Por isso, depois da onda de direita, então será a vez da esquerda. Talvez em cinco ou oito anos, conforme prevê o geógrafo britânico David Harvey: será a vez da esquerda. E isso é quase inevitável, pois se a direita está chegando junto ao poder mundo afora (com discursos que levam a uma síntese impossível: ora populista, ora de medidas impopulares), então é a própria direita quem vai desgastar a sua imagem dentro da esfera pública: as mentiras começarão a ser entendidas e as medidas de austeridade começarão a criar efeitos diretos contra as classes média e baixa. Assim, quem hoje votou na direita ou ultradireita, amanhã ficará politicamente órfão.
Em cerca de cinco anos, então, os políticos que hoje negam a política começarão a deixar de fazer sentido. Serão desmentidos por si mesmos, por seus próprios mandatos. Todos veremos, então, que a trupe do Trump é uma trupe de políticos camaleônicos: políticos que marqueteiramente se vendem como não-políticos. Aliás, não por coincidência, o magnata paulistano João Doria trilhou os mesmos caminhos do magnata nova-iorquino; ambos nasceram do show business da TV. Trump, como apresentador do “The apprentice”, pela NBC, e João Doria como apresentador de “O Aprendiz”, pela Record. Mas com o tempo, um breve tempo, esses “não-políticos” serão inevitavelmente revelados. E aí será a vez da esquerda.
Porém, enquanto isso não acontece, continuemos olhando o mar atual, tão favorável à direita. Primeiramente, os nomes: Trump, Temer, Macri, Doria, Le Pen, Crivella, Petry, Bolsonaro, May, Feliciano, Wilders… Em segundo, as suas bandeiras: “Não sou político, sou gestor”, “Vamos construir um muro contra esses imigrantes”, “Nazismo não é de direita”, “Fora PT”, “Pela memória do Coronel Brilhante Ustra”, “Somos todos Cunha”, “Mais meritocracia e menos esmola”, “Direitos Humanos só para humanos direitos”, “Escola sem partido”... Por fim, as consequências históricas: congresso mais conservador desde 1964; golpe parlamentar; retirada da Filosofia do ensino médio; descaso com milhares de inocentes morrendo no mar ao fugir de guerras; chegada do fundamentalismo neopentecostal ao poder; apenas 1% detém mais de 50% da riqueza no capitalismo; votação contra o acordo de paz com as Farc; votação favorável ao separatismo do Brexit... Eis aí a onda de direita, que por ora vai afogar muitas minorias.
Wellington Anselmo Martins, graduado em Filosofia (USC), mestrando em Comunicação (Unesp), bolsista de pesquisa de pós-graduação (Capes).

Ainda não há comentários.
Veja mais:
PC: homem é preso acusado de ameaçar ex-mulher e familiares
Sancionada lei que proíbe descontos em benefícios do INSS
Atraso de cirurgia de idosa: TJ condena plano de saúde
EUA x Venezuela: os limites entre o direito à guerra e o combate ao crime organizado
Urna eletrônica: entenda como o equipamento transformou o processo eleitoral brasileiro
Estado destaca obras de novos Hospitais Regionais em MT
Autismo Visível
Patentes farmacêuticas não são certificados de segurança sanitária
Ministério lança edital para formar agentes populares de saúde
Interior: Polícia Militar mira faccionados acusados de homicídios