• Cuiabá, 17 de Janeiro - 2026 00:00:00

O silêncio como método

Cerca de 2.000 pessoas morreram no Irã desde o início dos protestos contra o regime. A resposta do governo foi desligar completamente a internet, endurecer a repressão nas ruas e empurrar a violência para longe dos olhos do mundo. Nada disso é exatamente surpreendente. O que realmente importa não está acontecendo dentro do Irã, mas fora dele: a forma como a comunidade internacional escolhe reagir ou fingir que não vê essa brutalidade.

A comparação com outras crises recentes é inevitável. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a reação do Ocidente foi imediata e coordenada. Sanções pesadas, dezenas de bilhões em ajuda militar, cobertura midiática permanente e discursos inflamados sobre democracia e soberania. No caso iraniano, mesmo com milhares de mortos, o que se vê são comunicados diplomáticos genéricos, nenhuma sanção nova relevante e um silêncio constrangedor da grande imprensa internacional. A pergunta não é se há diferença. É por que ela existe.

Essa diferença não tem relação com o número de vítimas nem com a gravidade das violações. É cálculo geopolítico puro. O Irã controla reservas de petróleo importantes para uma economia global ainda dependente de energia fóssil e ocupa uma posição central no equilíbrio nuclear do Oriente Médio. Pressionar Teerã significa mexer em preços de energia, riscos regionais e cadeias de abastecimento. E poucos governos estão dispostos a pagar esse preço agora.

A contradição aparece de forma explícita na prática diplomática. A Europa divulga notas condenando a repressão aos protestos iranianos, mas continua sentada nas mesmas salas negociando a retomada do acordo nuclear. Os Estados Unidos fazem discursos públicos sobre direitos humanos, enquanto nos bastidores calculam como evitar que o Irã se aproxime ainda mais da China e da Rússia. A mensagem é objetiva: direitos humanos importam, mas não tanto quanto interesses estratégicos.

Esse padrão seletivo não é exclusivo do Irã. A Arábia Saudita conduz há anos uma guerra devastadora no Iêmen e assassinou um jornalista dentro de seu consulado, sem sofrer isolamento real. A China mantém campos de reeducação em Xinjiang e esmagou Hong Kong politicamente, recebendo apenas sanções simbólicas enquanto o comércio global segue normalmente.

A intensidade da reação internacional segue uma lógica previsível baseada em três fatores. Primeiro, a importância econômica do país: ele controla recursos essenciais? Segundo, seu alinhamento geopolítico: é aliado, adversário ou ambíguo? Terceiro, a existência de alternativas: ele pode ser facilmente substituído? Quando as respostas favorecem o país, a repressão é tolerada. Quando não favorecem, vira escândalo global.

O Brasil de Lula ilustra bem essa seletividade. Na guerra da Ucrânia, o governo falou em "clube da paz" e relativizou responsabilidades, chegando a equiparar Zelensky a Putin. Em Gaza, Lula classificou a ação israelense como genocídio. Já no caso do Irã, onde o regime mata seus próprios cidadãos, o silêncio é absoluto. A diferença é simples: o Irã é parceiro nos BRICS.

Essa seletividade não é acidente. É estratégia. Criticar Israel rende pontos com a base política e com o chamado Sul Global. Relativizar a Ucrânia agrada Rússia e China, parceiros comerciais essenciais. Criticar o Irã, porém, colocaria em risco a arquitetura dos BRICS e a ambição brasileira de liderar um bloco alternativo ao Ocidente. Direitos humanos entram, assim, como moeda de troca na construção dessa nova ordem multipolar.

O regime iraniano entende perfeitamente essa dinâmica. Por isso calibra sua repressão com precisão. Violenta o suficiente para controlar as ruas e desencorajar novos protestos, mas calculada para não ultrapassar o limite que forçaria uma reação internacional concreta. Eles sabem exatamente onde está a linha — porque o mundo já mostrou.

Para os manifestantes iranianos, a mensagem é cruel: vocês estão sozinhos. Haverá hashtags, notas de solidariedade e monumentos iluminados. Não haverá custo político real para quem reprime. A cavalaria não existe quando você protesta no país errado.

O problema não é a hipocrisia individual de líderes. É estrutural. Direitos humanos deixaram de ser princípios inegociáveis e passaram a ser fichas em negociações maiores. O caso do Irã não é uma exceção ao sistema internacional. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.

Da próxima vez que surgir indignação seletiva no noticiário, vale fazer três perguntas simples: que negociação maior está acontecendo nos bastidores? Que recurso estratégico está em jogo? Quem precisa mais de quem nessa relação? As respostas quase sempre explicam o silêncio.

 

*Wilson Pedroso é analista político e consultor eleitoral com MBA nas áreas de Gestão e Marketing.



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