Entre Mato Grosso, a diplomacia e as voltas que o mundo dá
Uma fotografia registrada em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, me fez pensar sobre os caminhos que escolhemos e aqueles que acreditamos ter deixado para trás.
Na imagem, estou com dois diplomatas brasileiros no belo estande de Mato Grosso na Expocruz 2026, organizado pela Invest MT. Falávamos sobre Brasil, Mato Grosso, agronegócio, oportunidades e inserção internacional.
A cena tinha um significado especial para mim.
Eu desejei muito ser diplomata brasileiro.
Não fui.
A vida me levou por outros caminhos: a universidade, a ciência, o doutorado no exterior, a docência e, mais tarde, uma atuação cada vez mais ligada à internacionalização.
Durante algum tempo, enxerguei a diplomacia como um caminho que não percorri. Hoje penso diferente.
Talvez alguns sonhos não desapareçam. Talvez apenas assumam outras formas.
Frequentemente confundimos propósito com cargo, vocação com profissão. Quando jovens, imaginamos o futuro a partir de posições muito concretas: queremos ser diplomatas, médicos, professores, empresários, pesquisadores. E, quando a vida nos conduz para fora daquele roteiro, podemos acreditar que abandonamos um sonho.
Mas talvez tenhamos abandonado apenas uma das formas possíveis de realizá-lo.
Quando penso no jovem Lucas que desejava ser diplomata, percebo que por trás daquele desejo havia algo maior: curiosidade pelo mundo, interesse pelas relações internacionais e vontade de construir pontes entre pessoas, instituições e países.
E isso permaneceu.
Nos últimos anos, passei a participar de missões internacionais e agendas envolvendo governos, universidades e empresas de diferentes países. Mato Grosso passou a ocupar o centro de muitas dessas conversas.
Foi nesse percurso que conheci mais de perto a paradiplomacia, conceito que descreve a atuação internacional de governos subnacionais, como estados, províncias e municípios. Aos poucos, percebi que aquela palavra também ajudava a explicar parte do caminho profissional que eu mesmo vinha percorrendo.
Não me tornei diplomata. Mas, por outros caminhos, passei a contribuir para a construção de pontes entre Mato Grosso e o mundo.
Como cristão, creio na providência de Deus. Talvez uma das coisas mais bonitas da vida seja olhar para trás e perceber que caminhos aparentemente desconectados eram fios de uma mesma tapeçaria. Enquanto enxergamos apenas partes do desenho, Deus vê a obra inteira e, como o grande Tapeceiro, não perde o fio da nossa história.
Muitas pessoas carregam um sonho que acreditam ter deixado para trás.
Em vez de perguntar apenas por que aquele sonho não se realizou como imaginávamos, talvez valha fazer outra pergunta: o que havia nele que verdadeiramente nos movia?
A resposta pode revelar algo surpreendente: talvez aquele sonho nunca tenha desaparecido.
Ele apenas encontrou outra maneira de existir.
Prof. Dr. Lucas Oliveira de Sousa - PhD em Ciências Agrícolas pela Universität Hohenheim, Alemanha, professor da UFMT, especialista em agronegócio e internacionalização.