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16 Sep 2026 07:47

O futuro do contador não está nos números, mas nas decisões que ele ajuda a tomar

O futuro do contador não está nos números, mas nas decisões que ele ajuda a tomar
Crédito: Foto: Divulgação/Assessoria

Durante muito tempo, o contador foi visto como o profissional responsável por transformar números em informação. Sua rotina consistia em receber documentos, fazer lançamentos, conciliar contas, apurar impostos e produzir relatórios. Esse trabalho continua sendo essencial, mas a tecnologia alterou uma parte importante dessa equação. Afinal, o diferencial do contador estará, cada vez mais, na capacidade de interpretar dados e entregar insights valiosos para a tomada de decisão.

A mudança chega com o crescimento do uso da Inteligência Artificial, que acelera o processamento de dados, a organização de grandes volumes de informações, identifica padrões com velocidade, encontra inconsistências e produz análises em uma velocidade que dificilmente seria alcançada manualmente. O resultado é uma mudança de foco: o contador deixa de ser apenas aquele que informa o que aconteceu e passa a ter condições de explicar por que aconteceu, quais são os riscos e o que a empresa pode fazer a partir disso.

Essa transformação já aparece, inclusive, nos dados de mercado. Um levantamento global da ACCA e do Institute of Management Accountants, feito com cerca de 1.600 profissionais de finanças, mostra que mais de 60% das equipes aumentaram o uso de dados operacionais em tempo real nos últimos dois anos para produzir melhores insights e apoiar decisões. Ao mesmo tempo, 72% dos entrevistados afirmam possuir apenas habilidades básicas ou nenhuma habilidade em IA generativa. Há, portanto, uma contradição interessante. As empresas estão produzindo e utilizando mais informação em tempo real, mas os profissionais ainda estão desenvolvendo as competências necessárias para transformar essa informação em inteligência. É justamente aí que vejo uma das maiores oportunidades para a contabilidade.

Imagine uma empresa que descobre, por meio de seu sistema financeiro, que sua margem de lucro caiu. O relatório pode mostrar o número e a tecnologia pode identificar a variação, mas alguém ainda precisa interpretar o contexto, identificar e entender se o problema está nos custos, no preço, no mix de produtos, no prazo de recebimento, se existe uma tendência que merece atenção e até qual decisão deveria ser tomada. Essa é a diferença entre entregar informação e gerar valor.

Diante disso, avalio que a evolução tecnológica não diminui a importância do contador. Ao contrário, pode elevar o profissional dentro da cadeia de decisão das empresas. Quanto mais fácil se torna produzir números, maior passa a ser o valor de quem consegue atribuir significado a eles. A própria transformação dos escritórios, inclusive, aponta nessa direção. Segundo dados da Wolters Kluwer, 41% das empresas de contabilidade pesquisadas já utilizavam ferramentas habilitadas por IA em 2025, contra apenas 9% em 2024. Entre os usuários regulares, 73% afirmaram que os resultados superaram suas expectativas, principalmente em velocidade, precisão e atendimento ao cliente.

Isso abre espaço para uma mudança no modelo de negócio dos escritórios. Se a tecnologia consegue assumir parte do processamento, o profissional pode dedicar mais tempo a serviços consultivos, planejamento, análise de indicadores, identificação de riscos e orientação estratégica.

Para pequenas e médias empresas, essa transformação pode ser ainda mais relevante, visto que muitas delas não possuem um CFO, uma equipe financeira robusta ou profissionais dedicados à análise de dados. O contador pode ocupar justamente esse espaço e transformar a informação contábil em uma espécie de inteligência externa para o negócio.

É importante ressaltar que isso não significa entregar a tomada de decisões à Inteligência Artificial. Quanto maior o uso da tecnologia, maior a necessidade de julgamento profissional, revisão, governança e responsabilidade. Isso, porque um sistema pode identificar uma anomalia, mas cabe ao contador entender se ela representa um erro, uma oportunidade ou um risco.

Acredito, portanto, que o contador do futuro será menos lembrado pela quantidade de informações que consegue processar e mais pela qualidade das decisões que consegue ajudar seus clientes a tomar. Durante décadas, o principal desafio foi transformar documentos em números. Agora, o desafio é transformar números em conhecimento e em ações. Sendo assim, a verdadeira evolução da profissão não está em deixar os números para trás, mas em ir além deles.

 

*Mauricio Frizzarin é fundador e CEO da QYON, empresa norte-americana especializada em inteligência artificial e agentes de IA. Frizzarin cursou Engenharia de Software e Marketing, OPM (Owner/President Management) na Harvard Business School, Executive Education em Inteligência Artificial na University of California, Berkeley e em Fintech em Harvard - www.qyon.com 

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