Articulistas
14 Sep 2026 09:58

Antes do voto, algumas perguntas

Antes do voto, algumas perguntas
Crédito: Foto: Reprodução
Em uma eleição, todo candidato quer contar uma boa história sobre si mesmo.
 
A campanha escolhe as melhores fotografias, seleciona realizações, produz vídeos, constrói slogans e transforma biografias complexas em mensagens de poucos segundos. É da natureza da disputa eleitoral. O problema começa quando confundimos comunicação política com realidade política.
 
Por isso, talvez exista uma pergunta anterior a “em quem votar?”: o quanto realmente conhecemos aqueles que pedem nosso voto?
 
Conhecer um candidato exige atravessar a superfície da campanha.
 
Antes da propaganda, existe uma trajetória. Antes da promessa, pode existir um mandato. Antes do discurso, muitas vezes existem votos, projetos, decisões, alianças, recursos públicos administrados e posições assumidas quando ainda não havia uma eleição para conquistar.
 
É aí que a análise começa a ficar interessante.
 
Quem era o candidato antes de precisar convencer você?
 
Qual sua história profissional? Que funções exerceu? Por quais partidos passou? Já administrou alguma coisa? Já teve mandato? O que apresentou, votou, defendeu ou realizou?
 
Hoje, grande parte dessas respostas deixou de depender exclusivamente da memória ou da versão contada pelos próprios políticos. No caso dos deputados federais, por exemplo, a Câmara disponibiliza bases públicas de proposições e votações, permitindo acompanhar documentalmente parte relevante da atuação parlamentar.
 
Isso permite substituir uma pergunta genérica — “o que ele diz que defende?” — por outra mais precisa: “o que sua trajetória demonstra que ele defendeu?”
 
Não significa exigir que alguém pense exatamente da mesma maneira durante toda a vida. Mudar de opinião faz parte da experiência humana e política. Mas existe diferença entre mudar de posição e simplesmente adaptar o discurso à conveniência do momento. Os registros ajudam o cidadão a compreender essa diferença.
 
Também vale prestar atenção às promessas.
 
E aqui há um filtro simples, mas poderoso: o candidato pode realmente fazer aquilo que está prometendo?
 
Presidente, governador, senador, deputado, prefeito e vereador possuem atribuições diferentes. A Constituição estabelece competências específicas para cada Poder e, no âmbito federal, define inclusive atribuições próprias do Presidente, da Câmara e do Senado.
 
Isso significa que uma proposta pode soar excelente e, ainda assim, depender de outro Poder, de outro ente federativo, de aprovação legislativa ou de disponibilidade orçamentária.
 
Depois vem outra pergunta incômoda: como será feito?
 
“Melhorar a saúde”, “valorizar a educação”, “gerar empregos” ou “combater a violência” são objetivos que dificilmente encontrariam oposição. O desafio está no que vem depois.
 
Qual programa? Quanto custa? De onde virão os recursos? Qual prazo? Que estrutura será necessária? Como saberemos, quatro anos depois, se a promessa saiu do palanque e chegou à vida real?
 
Promessa sem método pode produzir esperança. Proposta com mecanismo de execução permite fiscalização.
 
A própria campanha também revela informações.
 
Quem financia? Onde o dinheiro é gasto? Quem presta serviços? Qual é a estrutura construída para disputar o poder?
 
Nas eleições de 2026, a Justiça Eleitoral mantém sistemas específicos para prestação de contas de candidatos e partidos e disponibiliza instrumentos públicos de consulta, inclusive por meio do DivulgaCandContas.
 
Para quem já exerce mandato parlamentar, é possível ainda observar outro aspecto frequentemente utilizado no discurso político: as emendas.
 
O Portal da Transparência permite consultar recursos destinados por parlamentares, localidades beneficiadas e favorecidos, além de diferenciar valores empenhados e pagos.
 
Aqui também cabe atenção: anunciar recurso não é necessariamente a mesma coisa que vê-lo chegar ao destinatário final. A execução do dinheiro público possui etapas, e conhecê-las ajuda a separar publicidade de resultado.
 
O mesmo cuidado precisa existir diante de acusações.
 
Em período eleitoral, quando informações circulam rapidamente, reduzir todas elas à mesma palavra pode produzir mais confusão do que esclarecimento. Checar a fonte e veracidade são elementos chave para a Democracia.
 
A mentira e às fake news corrompem a opinião do eleitor e subvertem todo o resto, sendo um retrocesso civilizatório, perante aquilo que já foi conquistado e o que ainda precisa ser, para a vida do cidadão melhorar e desenvolver.
 
Atacar o Estado de Direito, direitos humanos e fundamentais, a Constituição e a legislação eleitoral, é um desserviço à população e um retrocesso civilizatório.
 
No fundo, avaliar uma candidatura pode ser menos complicado do que parece.
 
Não é preciso dominar ciência política, Direito ou economia. É suficiente começar fazendo perguntas melhores.
 
Quem é? O que já fez? O que prometeu anteriormente? O que realizou? Como utilizou as oportunidades que teve? O que está propondo agora? A proposta é possível? Quanto custa? Quem pagará? E, principalmente: onde estão os fatos que confirmam aquilo que está sendo dito?
 
Campanhas são feitas para conquistar atenção, confiança e votos. É legítimo que seja assim.
 
Mas democracia não exige do cidadão apenas que escolha.
 
Exige também que observe, questione e fiscalize.
 
Porque, na política, discursos podem ser cuidadosamente construídos.
 
A trajetória, entretanto, deixa rastros.
 
Paulo Lemos é Advogado e Analista Político-social.
Voltar Mais de Articulistas

Comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!

Deixe seu comentário