Um país atolado na lama da corrupção
É preciso dizer com todas as letras: os três poderes da República brasileira e suas mais importantes instituições sucumbiram. Não se trata de discurso oportunista de período eleitoral, tampouco indignação seletiva; é a realidade – triste e grave – de uma nação que está à deriva e sangrando. Um país atolado na lama da corrupção.
A honra, a ética, os valores morais, o respeito à população, ao dinheiro público, à democracia e aos legítimos interesses do País foram literalmente abandonados. A transparência foi bloqueada pela blindagem das mais altas autoridades que aparecem nas apurações de meses da Polícia Federal e comandadas por um dos 10 ministros da mais alta corte judicial do país, o Supremo Tribunal Federal (STF).
Os escândalos se acumulam na história, demonstrando que a corrupção é endêmica. Agora, atingiu um estágio de degradação moral jamais visto porque extrapolou os campos político e administrativo para macular também o Judiciário.
Ninguém escapa da saga audaciosa dos corruptores e corruptos associados ao poder maior, nem mesmo os idosos e deficientes, aposentados, pensionistas e beneficiários do INSS que sobrevivem de uma única fonte de renda, na maioria dos casos, com proventos de um mísero salário-mínimo mensal. Parece não haver limites. Tamanha crueldade.
O mais recente escândalo de magnitude infinita é o do Banco Master, cujas revelações escancaram o envolvimento das mais altas autoridades. Um rombo recordista de R$ 85 bilhões, lesando banco estadual e fundos de pensão e instituições financeiras – algumas controladas por governos estaduais -, tudo engendrado e executado por uma única pessoa, um banqueiro que não economizou para corresponder os blindadores de suas operações – governadores, ministros, ex-ministro, autoridades do Banco Central, senadores, líderes do governo, presidentes de casas legislativas, famílias de ministros e até o topo do Ministério Público Federal. Tudo regado a whisky Macallan, charutos cubanos, festas nababescas no exterior, viagens aéreas de primeira classe, convite VIP para grandes eventos, contratos milionários e outros salamaleques.
Uma tragédia. Uma rede tão forte que lembra um contêiner repleto de caranguejos e a missão impossível de se tirar dele somente um único crustáceo porque ao puxar um, muitos outros virão junto, enroscados no primeiro.
A situação remete ao que disse Ulysses Guimarães, o Sr. Diretas: o cadáver foi aberto e está fedendo. E muito.
Há uma pergunta no ar, à espera de resposta urgente. Diante desse quadro, o que estão esperando as forças vivas da sociedade: Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entidades intelectuais, líderes sindicais, empresários e imprensa?
Estamos falando de um mal que não é novo porque há décadas corrói a nação, mas que agora, com a impunidade garantida, atingiu nível insuportável e que não pode ser negligenciado ou tolerado sob qualquer pretexto.
É preciso estancar a sangria, identificar todos os responsáveis, punindo-os com o rigor da lei, independentemente do cargo que ocupam. Este não pode continuar sendo o país dos intocáveis.
Mas também é necessário buscarmos as causas. Uma delas, sem dúvida, é o instituto da reeleição para cargos do Executivo. A reeleição se mostrou desastrosa porque o vencedor do pleito já começa a pensar em um novo mandato logo que se senta na cadeira do poder. Por conta disso, o saudável governo de coalização foi substituído pelos governos de cooptação, nos quais o toma-lá-dá-cá virou moeda corrente, sem qualquer freio moral.
O Brasil está de luto e quem paga a conta são mais de 100 milhões de brasileiros, a camada mais empobrecida da população. Gente de carne e osso que sofre redução alimentar porque o dinheiro está cada vez mais escasso, fruto da não-correção da inflação nos últimos três anos (total de 14,17%) no valor do Bolsa Família. São 60 milhões de pessoas que sofrem com a corrosão inflacionária do benefício, além de outros milhões que sentem o efeito da alteração cruel da fórmula de reajuste do salário-mínimo, tudo a pretexto da austeridade fiscal que, na prática, está longe de ser perseguida com seriedade, pois o déficit já atinge R$ 1 trilhão por ano.
Acabamos de celebrar mais um aniversário da Independência. O grito do Ipiranga não pode ser calado, 204 anos depois, por quem prefere, a qualquer custo, que a independência não se sustente. Tampouco o país pode permitir que o dinheiro da corrupção continue enchendo os cofres e engordando o patrimônio de corruptos e corruptores, enquanto a desigualdade social se aprofunda.
Nosso país não merece viver essa situação. Ninguém pode se omitir. Ao brasileiro comum cabe mais do que rezar e se indignar. As eleições estão próximas e o poder de cada voto é igual ao poder dos intocáveis, muitos dos quais alcançaram o poder sem concurso público e sem o escrutínio do povo. A vantagem é que os cidadãos de bem somam mais de 200 milhões.
*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros "Brasil, um país à deriva", "Caminhos para um país sem rumo" e "Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial". Site: https://samuelhanan.com.br ano