Gonçalo Antunes de Barros Neto
Em tempos de certezas instantâneas e “verdades” fabricadas por algoritmos, vale revisitar Karl Popper. Em Conjecturas e Refutações, ele propõe uma ética intelectual incômoda: o conhecimento progride não ao somar confirmações, mas ao arriscar-se ao erro. Teorias científicas, dizia, devem dizer o que as derrubaria; esse é o critério da falseabilidade. Em vez de blindar crenças, a boa ciência constrói as próprias “saídas de emergência”.
Como alertou David Hume, nenhuma coleção de sucessos garante a verdade de uma hipótese; um único “cisne negro” basta para invalidar “todos os cisnes são brancos”. A lição popperiana transforma o cientista em arquiteto de testes severos, não em colecionador de provas simpáticas.
Popper escreve menos sobre laboratórios e mais sobre atitudes. A ciência, para ele, é um modo institucionalizado de praticar humildade: “prefiro críticas leais a confirmações entusiásticas”. Nessa direção, Jürgen Habermas lembraria que a legitimidade nasce do melhor argumento; Popper acrescentaria: dos melhores testes. Onde faltam dados abertos, reprodutibilidade, espaço para resultados negativos e cultura de réplica e tréplica, sobra dogma. Teorias “imunizadas” — que explicam qualquer coisa, sempre retrospectivamente — explicam nada. A advertência vale para pseudociências e para certa tecnocracia infalível que se protege com jargões.
Popper não ficou sem críticos, mas as objeções não o anulam; complexificam seu mapa. Mostram que refutar não é gesto puramente lógico: envolve práticas, instituições, incentivos e até estilos de pensamento.
Fora do laboratório, o espírito popperiano é antídoto necessário. Em políticas públicas, a tentação é buscar evidências confirmatórias e narrativas de sucesso. O caminho honesto exige objetivos claros, indicadores refutáveis e auditorias independentes. No Judiciário, a postura crítica pede hipóteses acusatórias testáveis, atenção às alternativas explicativas e transparência metodológica na prova técnica — para que “autoridade” não vire opacidade.
A tecnologia trouxe dilemas novos. Modelos de inteligência artificial podem entregar alto desempenho com baixa explicabilidade. Úteis, sim; refutáveis, nem sempre. A resposta popperiana sugere explicabilidade mínima, auditorias externas e “torneios” públicos que permitam a queda de modelos outrora vencedores. Zygmunt Bauman falou da liquidez das certezas; Popper recomendaria solidificar os rituais da crítica: critérios, benchmarks, reprodutibilidade e disposição para “matar” hipóteses queridas.
Há, em Popper, também uma dimensão política. Em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, ele defende instituições que tratam políticas como hipóteses revisáveis e governantes como conjecturas temporárias. Isaiah Berlin reforça: valores fundamentais colidem (liberdade, igualdade, segurança); por isso, precisamos de procedimentos que suportem desacordo e correção. Hannah Arendt lembraria que liberdade aparece quando a palavra encontra resposta; sem refutação, sobra propaganda. Democracias sadias não buscam unanimidade, mas mecanismos para errar melhor.
Evitemos, contudo, a caricatura. Popper não pediu que se abandonasse as teorias ao primeiro contraexemplo. Ele preferia hipóteses mais expostas ao risco e mais fecundas em previsões. John Rawls diria que instituições justas são aquelas desenhadas para aprender com o próprio erro. Para a imprensa, a universidade e o Judiciário, a agenda converge: criar ambientes em que o erro venha à luz sem linchamento e em que a retificação seja prêmio, não vergonha.
O legado popperiano é, afinal, uma ética da humildade combativa. Em vez de blindar crenças, constroem-se cenários de queda para elas. De buscar a prova final, arquitetam-se bons experimentos de refutação. De confundir reputação com verdade, lembrar-se de que ciência e democracia são jogos de coragem institucional: expor-se ao teste, suportar o desmentido, melhorar a hipótese. Num mundo saturado de certezas instantâneas, sustentar o direito de refutar — e o dever de ser refutado — talvez seja a melhor esperança de, um dia, acertar.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto é professor de filosofia da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso – ESMAGIS/MT.

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