Paulo Lemos
Vivemos uma época em que o maior crime é não se encaixar. A “normalidade” tornou-se o valor supremo — um padrão invisível, mas opressor, que regula comportamentos, controla desejos e define o que é ou não aceitável. O curioso é que ninguém sabe ao certo quem decidiu o que é “normal” — mas todos obedecem.
A normalidade não é um estado natural. É uma invenção histórica, ajustada ao sabor de interesses políticos, econômicos e culturais. Na Idade Média, a loucura era associada ao místico; no século XIX, patologizada pela psiquiatria nascente; hoje, ela é silenciada por um coquetel de remédios e rotinas exaustivas. Em todas essas fases, a linha que separa o “são” do “louco” foi redesenhada para proteger a ordem vigente.
Foucault já nos alertou: o controle social passa pelo corpo e pela mente. A normalidade é a disciplina internalizada — um sistema de autocensura tão eficaz que nem precisa mais de polícia na porta; a patrulha mora dentro de nós.
A rotina moderna é um espetáculo bem ensaiado: trabalhar, consumir, reproduzir, morrer. Tudo com aparência de escolha, mas com pouquíssimo espaço para a verdadeira liberdade. “Ser normal” significa estar disponível para a máquina — dócil o suficiente para não questionar, produtivo o suficiente para não incomodar.
Essa engrenagem cria o cidadão ideal: alguém que aceita injustiças como inevitáveis, sufoca emoções para não “parecer fraco” e substitui sonhos por metas corporativas. Para isso, é preciso anestesiar a alma — e a indústria farmacêutica está mais do que disposta a ajudar.
Enquanto isso, qualquer um que ouse romper o script é taxado de “problemático”, “instável” ou “utópico”. Mas, como lembra Pellegrino, a utopia não é um luxo — é a respiração de quem recusa o sufocamento do possível.
Os verdadeiros loucos — e aqui a palavra é resgatada como elogio — são os que desafiam a ordem da mediocridade. Não vivem para acumular coisas enquanto a alma se esvazia. Sabem que a dor não é defeito, mas prova de vida; que a fragilidade não é fraqueza, mas coragem exposta.
O sistema teme esses loucos porque eles não cabem no mercado. Não produzem na lógica do lucro, não competem pela validação alheia, não medem afeto em números. Não acreditam que estabilidade é o ápice da existência.
Clarice Lispector dizia que “liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome”. Essa é a essência da loucura lúcida: não aceitar o vocabulário que nos deram para descrever a vida, mas inventar o próprio dicionário.
O que chamam de sanidade, na maioria das vezes, é conformismo. É suportar jornadas de 12 horas de trabalho sem questionar o sentido disso. É viver preso a padrões de consumo que prometem felicidade e entregam ansiedade. É cultivar relações superficiais para evitar a vulnerabilidade.
Essa sanidade “funcional” é a saúde dos covardes — um acordo tácito de sobrevivência sem intensidade. Ela nos faz acreditar que sentir é perigoso e que pensar fora da caixa é sinal de perigo social.
O problema é que essa forma de viver mata lentamente. Primeiro, morre o espanto. Depois, a curiosidade. Por fim, morre a capacidade de amar. O corpo continua se movendo, mas a vida já não está.
É hora de romper com a normalidade. Não para cair no caos sem sentido, mas para resgatar a alma que nos foi sequestrada. A loucura que precisamos é política e poética. É a insubmissão que recusa aceitar que o que temos é o máximo que podemos sonhar.
Num mundo que idolatra vencedores, é preciso valorizar quem fracassa tentando. Num mundo que glorifica a frieza, é preciso cultivar ternura como arma. Num mundo que transforma cinismo em virtude, é preciso acreditar — e acreditar não como ingenuidade, mas como resistência.
Essa não é uma defesa do irracionalismo cego, mas do direito de viver de forma insubmissa, criativa e profundamente humana. Como diria Nietzsche, é preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.
Não se trata de perder a razão. Trata-se de devolver a razão ao seu lugar: ferramenta, não jaula. A vida, em sua forma mais plena, exige riscos, exige entrega, exige paixão. E isso só é possível quando ousamos atravessar o território que a normalidade proibiu.
O mundo já tentou a normalidade. O resultado está aí: desigualdade gritante, relações superficiais, sentido rarefeito. Talvez seja hora de tentar a loucura lúcida — a que olha nos olhos, dança na beira do abismo e ainda acredita que um outro mundo é possível.
A normalidade está nos matando. A loucura pode nos salvar.
Paulo Lemos é advogado em Cuiabá e Mato Grosso.

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