Claudio Felisoni
Inicialmente é bom ter em mente a limitação das previsões. Como disse Fernando Pessoa: Vivo sempre no presente. O futuro não o conheço. Portanto encaremos essa fala como um mero exercício de lógica. Tem o seu valor, porque aguça nosso interesse e amplia o horizonte percebido.
O desempenho do varejo de bens e serviços no curto prazo, digamos, para o próximo ano depende fundamentalmente das seguintes variáveis: taxa de juros, política monetária (taxa básica), política fiscal, renda disponível, confiança do consumidor, condições do mercado de trabalho, preços dos bens e serviços e crédito.
Assim como o corpo humano depende do funcionamento de suas partes, também a economia se constitui em um sistema interdependente. Ou seja, sinteticamente as relações definem um único tecido.
O movimento desse corpo, a direção, se vincula primordialmente ao porvir: as luzes do processo decisório estão na proa e não na popa. O que passou, passou. Porém, o que passou, tem relevância, pois nos ensina a lançar as luzes da proa de modo mais preciso.
Não há nada pior para o consumo das famílias que um aumento acelerado dos preços. A inflação é um imposto, pois retira renda real dos indivíduos. Porém, não é apenas um imposto. É um imposto regressivo, onera mais exatamente quem menos pode se proteger contra os seus efeitos deletérios.
O IPCA acumulado de janeiro a outubro foi de 2,6% em 2019, 2,2% em 2020, 8,2% em 2021, 4,7% em 2021 e 3,7% em 2023. Lembremos que o Banco Central começou a trajetória de elevação da Selic em março de 2021, passando de 2% a.a. para 2,75% a.a. A Selic continuou sendo majorada até agosto de 2022 atingindo a taxa de 13,75% a.a. Manteve-se nesse nível até agosto de 2023, quando iniciou o período de cortes da taxa básica. Esse movimento reducionista trouxe a taxa básica em novembro para 12,25% a.a.
Gostemos ou não, foi essa política que fez com que a evolução dos preços convergisse para o que temos hoje. Essa é a história. É o que vemos com as luzes lançadas da popa. Mas, a pergunta aqui é o que esperar de 2024. Lançando os faróis para o horizonte próximo o que podemos enxergar?
Temos que considerar o seguinte: o mar infelizmente não está para peixe. É a conclusão do Fórum Econômico Mundial. O relatório aponta que as perspectivas imediatas para a economia global e para grande parte da população mundial são sombrias.
E internamente? Imagine dois indivíduos empurrando um objeto pesadíssimo. Se um deles amolece, sobra para o outro. O pior é que talvez por mais esforço que esse outro faça é bem provável que o objeto não se mova. Se o governo alivia a política fiscal, sobra para o outro, Banco Central, política monetária, um esforço bem maior, ou seja, manutenção dos juros em patamar elevado ou mesmo elevação.
Quais são os sinais que o governo tem dado? Infelizmente, como mencionado em artigo anterior, o cenário não é animador. O governo passa a ideia de uma política fiscal frouxa, atendendo as demandas de um congresso voraz por verbas. A consequência é, como foi dito, que quanto menos compromisso com a trajetória fiscal, maior terá de ser o empenho do Banco Central para segurar os preços.
Não há dúvida que o Brasil tem um grande potencial emanado do seu mercado de consumo. Basta considerar que 30% da renda está concentrada em apenas 1% da população. É por essa razão que pequenas melhoras na distribuição da riqueza promovem grandes expansões do consumo mesmo com crescimento baixo.
Entretanto, devo registrar uma nota final: o curto prazo é o problema, até porque, como dizia Keynes, no longo prazo todos estaremos mortos. E, lembrando Fernando Pessoa, devemos perguntar o que temos hoje? Recentemente fomos surpreendidos, digamos assim, com a alta dos preços mostrada no IPCA 15, lançando dúvidas sobre a velocidade de redução da taxa básica. A verdade, por mais que se queira ser portador de notícias alvissareiras, é que as luzes postas na proa não revelam um oceano tranquilo em 2024.
Claudio Felisoni é presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School.

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