Tulio Portella
Estamos acostumados a entender o trabalho remoto como um benefício para as pessoas. Mas será que a empresa do futuro será capaz de sobreviver com uma parte de seus profissionais atuando 100% à distância, ou em formato híbrido?
Um dos primeiros pontos a destacar a respeito do home office não é o que se passa dentro de casa, e sim fora dela. O transporte nas cidades brasileiras é caótico. Conheço profissionais que antes da disseminação acelerada do modelo perdiam, todos os dias, cinco horas no trânsito para ir e voltar do trabalho. Não é possível que, dessa maneira, entregassem o seu máximo potencial na empresa.
Gente que poderia usar melhor o intervalo para prática de esportes, para um jantar com os filhos ou ainda, para evitar o estresse de deslocamentos monumentais. Simplesmente viver mais feliz, dedicado à carreira e ao que acredita e deseja para sua vida.
Mergulhar na ineficiência logística não combina com uma sociedade em que organizações e pessoas alinham seus propósitos, pensam juntas na transformação, em valores, crenças e sustentabilidade. Em uma realidade na qual pregamos o uso inteligente de dados e recursos, não dá para continuar a tratar assim o nosso tempo.
A inovação hoje é muito rápida para perdermos instantes valiosos em uma longa fila de automóveis. Uma pesquisa do Instituto Ipsos indica que o brasileiro espera 32 dias por ano no trânsito. Será, então, que as empresas estão cumprindo seu papel sustentável quando desconsideram os inúmeros formatos disponíveis para o trabalho à distância?
A pandemia nos trouxe inúmeras marcas e tristezas, mas também provou que o trabalho remoto pode ser uma solução para que saúde mental, qualidade de vida e resultado andem juntos. Tanto um benefício para os profissionais, que ganham condições distintas de escalar sua carreira; quanto para as empresas, capazes de reunir times com mais autonomia para organizar seus horários, produzir e trabalhar mais satisfeitos.
Em 2021, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), 22% das organizações que autorizaram o home office de seus times identificaram aumento da produtividade, enquanto 19% observaram redução. No ano seguinte, o percentual de empresas que perceberam o aumento de produtividade dos profissionais subiu para 30%, enquanto o que notou redução caiu para 10%.
O trabalho remoto é como estudar um idioma diferente. De início, da mesma maneira que é necessário reaprender uma lógica nova das palavras, uma nova forma de dizer o que se estava acostumado a falar, no home office é preciso entender maneiras diferentes de fazer reuniões, ser mais próximo dos colegas, produtivo e obter melhor desempenho. No início pode ser desconfortável. Com o tempo, ganha-se fluência.
O home office prepara as empresas para as vulnerabilidades do mundo. Na medida em que são constituídas de pessoas espalhadas pelo globo, tornam-se menos suscetíveis a panes regionais, instabilidades políticas e climáticas. Uma equipe pulverizada facilita a exploração de novos mercados e a abertura de unidades no exterior, protegendo contra o risco de variações cambiais e crises econômicas.
A possibilidade de contratação de times compostos por profissionais de cidades ou até países diferentes contribui para uma diversidade irrestrita, o que estudos diversos têm demonstrado impactar positivamente na performance. Se nossos colaboradores não conseguem manter o compromisso à distância, é preciso avaliar se essa é uma questão dele ou da própria cultura da empresa, incapaz de engajá-lo.
Em um mundo na iminência de uma estrondosa reformulação que a inteligência artificial promete realizar na atividade humana, não é possível que a distância seja um obstáculo para trabalhar e superar metas.
Tulio Portella é diretor comercial da B&T Câmbio. Possui MBA em Comércio Exterior e Negócios Internacionais pela - FGV e Pós-Graduação em Gestão de Empresas Familiares – PUC-RIO.

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