Emanuel Filartiga
A morte e a fome sempre andaram juntas.
Uma companheira enlutada solicita que, em vez de coroa de flores, para o companheiro morto pela Covid-19, as pessoas, que seguem a marcha fúnebre, enviem cestas básicas para as pessoas que estão passando fome, as que também sobrevivem à marcha dos que têm fome.
Josué Castro sempre interrogou: "Será a calamidade da fome um fenômeno natural, inerente à própria vida, uma contingência irremovível como a morte? Ou será a fome uma praga social criada pelo próprio homem?"
O mesmo autor advertiu que o assunto é delicado e perigoso por suas implicações. Acautelou que até quase os nossos dias permaneceu como um dos tabus da nossa civilização – uma espécie de tema proibido ou, pelo menos, pouco aconselhável para ser abordado publicamente.
Mas viver é perigoso! E a fome... Ah! A fome!
A fome sempre existiu como sempre houve pobreza e miséria ao lado da riqueza e do luxo. Armário sem comida, criança comendo cacto, pessoa misturada ao lixo, que come restos... "que não enche nem metade do carrinho no mercado, não paga luz e água, o aluguel do barraco".
Perguntaram-me por que justamente no ano de pandemia os alimentos ficaram mais caros.
Na fila do banco, mesmo com máscara, bradaram: "Com esse valor de R$150 de auxílio não dá pra sobreviver, a gente vai morrer de fome".
Uma senhora, indignada, gritou que "só não tem dinheiro para o povo pobre, trabalhador. Não tem trabalho, não tem vacina. Vamos passar fome e morrer dentro de casa".
Sabemos que a cesta básica é a água com açúcar na assistência social, mas nunca, nunca mesmo, precisamos tanto de água com açúcar.
Nos últimos meses, muitos estão vivendo de ajuda do povo, os cidadãos sobrevivem com a ajuda um do outro. Quem tem mais, um pouco mais ou muito mais, doa aos que têm menos ou muito menos. Quem tem um pouco de arroz, troca por um pouco de feijão. Quem tem um pouco mais de água, enche um balde para quem precisa. "É nós por nós", dizem.
Pelos olhos, mãos e coração de quem recebe o "balaio de magias", este serve, ajuda e tranquiliza.
E como já ouvi de uma grande amiga, ficar acumulando muita coisa dentro de casa, nos armários, nas gavetas, dentro da gente... não presta. Dê! Solidário e fraterno leitor, ajude!
Emanuel Filartiga é promotor de Justiça em Mato Grosso.

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