Lourembergue Alves
Ouvia-se ao longe. Tornava-se próximo. Bem perto. Tão pertinho que parecia vir da janela, e não lá de fora, do outro lado da rua, saltitante nos galhos da árvore solitária, em meio ao concreto, exprimida entre o meio-fio e o muro de oito furos, que dava guarida a residência. Deixava-se acordar com o seu barulho-despertador, e levantava-se, despertado pelas ondas sonoras que invadiam o canal auditivo, e vibravam a membrana timpânica. Sentia-se cada nota de sua partitura natural. Deleite para a alma. Parecia durar, continuar, varar o tempo. Mas, um dia, sem ao menos ter avisado, não se fizera presente. Fora substituído pela taciturnidade que, ao chegar, murchara as folhas, e estas, uma vez secas, caíram ao gélido cimento, sem que pudesse “ouvir o silêncio”, ainda que venha a pulsar, e, de verdade, “pulsa/na palma da palavra/Encurvada na fala”, mas quem seria capaz de identificá-lo, ausentou-se, ou, melhor, o obrigaram a se ausentar.
Assim, amanheceu, entardeceu e anoiteceu mergulhado em um estranhamento sem fim. Tudo ficou triste. Triste em não mais ver a rouxinol do cerrado, embora nascida à beira-mar, e que insistia em correr “em direção” da Cidade-Verde, com a certeza de que os “desesperos” (dela) “invadem” o “coração” e o “ventre” da “cidade moça”, no exato instante em que gritava “o seu nome”, pois considerava também dela, e era mesmo, o “espaço citadino” da Capital, com “suas ruas danificadas”, “janelas lindamente escancaradas”.
Emudeceu-se. A poetiza “do viver de véspera”, de “agudas ou crônicas”, partiu para não mais voltar, e se misturou entre os mais diversos coloridos do arco-íris, deixando vazia a cadeira 2 do Santuário das Letras local. Vaga que logo terá um ou uma nova ocupante, mas o vazio continuará vazio, por mais que se queira fazer ouvir o seu canto, as suas notas musicais, revestidas de simbologias e de semiótica. Fazer ouvir, embebedar-se de seu canto não é o mesmo que ouvi-la novamente, ainda que a voz seja a mesma, igual timbre, e é por certo, pois suas partituras, em forma de poemas e poesias, continuarão, mesmo que as páginas que a compõem se tornem amareladas com os anos.
Pode até sentir sua vibração com o vento que atravessa o umbral e toma conta do ambiente cultural do velho casarão da antiga Rua do Campo. Ainda assim, não mais será possível presenciar seus gestos, o falar todo seu, e rouco até no gargalhar, adocicado pela maneira própria, mesmo quando se sentia chateada, desgostosa com alguma coisa ou com alguém. É desse vazio que se quer aqui falar, evidenciar, deixar claro. Pois não há mais quem possa, a não ser ela mesma a dizer que escutava “os ruídos íntimos da água passageira”, “os respingos quase ignorados da chuvinha medrosa”. Ninguém mais a “brincar de pega-ladrão com a medrosa chuvinha”.
Infelizmente, a velha árvore solitária, exprimida entre o meio-fio e o muro residencial, não mais irá florir, seus antigos galhos não mais revitalizarão, afinal, perdera quem a mantinha sempre em primaveril. A rouxinol do cerrado, conhecida pela pureza de seu cântico, de suas notas e pela variedade de sua melodia. Tão ou mais belo que a rouxinol da famosa história do dinamarquês, Hans Christian Andersen (1805-75), cujo canto, uma vez ouvido, jamais poderia ser esquecido. A rouxinol do cerrado jamais será. Isto porque seus poemas parecem sinos de vidro, a tocarem no fundo, bem dentro da alma, a despertar os corações, fazendo-os felizes. Aliás, não é outro o significado de seu nome: Marília carrega consigo traços de amor e Beatriz, quem faz os outros felizes. É isto.
Lourembergue Alves é professor universitário e analista político. E-mail: lou.alves@uol.com.br

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