Alfredo da Mota Menezes
Tem gente contra o Congresso, STF ou a mídia. Aumentou agora com Bolsonaro no governo. Alguns até pregam o fechamento dos outros poderes e que os militares assumam o governo. Santa ingenuidade. Vão resolver o problema do desemprego? Do problema fiscal? Da desindustrialização? Por decreto, na caneta?
Os militares ficaram 21 anos no governo e perderam a eleição para Tancredo Neves num Colégio Eleitoral, especialmente montado para manterem o poder, porque o governo do general Figueiredo foi muito mal. Foram três anos de recessão econômica e, no último ano de governo, a inflação passava de 200 por cento. Ali começava a hiperinflação e o inicio da década perdida.
Os militares chegaram ao poder num diferente cenário nacional e mundial. Estava-se em plena Guerra Fria. Havia receio nos EUA de que países da América Latina, que os norte-americanos chamam de quintal (backyard), caminhassem para a esquerda. Cuba, uma ilha, era uma coisa, o Brasil era outra. Investiram tempo, inteligência e muito dinheiro nisso.
Criaram institutos, como Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que distribuíam dinheiro para a mídia, para eleger e comprar deputados, levar milhares de pessoas em passeatas nas grandes cidades contra o governo Goulart.
Mandaram para cá o general Vernon Walters como Adido Militar. Ele fora o elo entre os militares brasileiros e nortes americanos na Segunda da Guerra na Itália. Falava português. Veio coordenar a ação para derrubar Goulart. Seus parceiros eram o embaixador Lincoln Gordon e a CIA
Tem muitos livros de história, nos EUA e no Brasil, com farta documentação, que mostra como os EUA montou toda a trama que veio dar no golpe de 31 de março. Foi o general Mourão, lá de Minas Gerais, assim do dia para a noite, que resolveu iniciar aquele movimento? Tudo estava amadurecido, trabalhado por anos pelos norte americanos.
Quem não quiser ler isso em livros, vá a Internet e bote lá: “o dia que durou 21 anos”. É um documentário sobre os antecedentes da tomada do poder. Historiadores norte americanos e brasileiros esmiúçam o tema. Mostram enxurradas de documentos. A trama foi tão bem articulada do exterior que a atuação dos militares brasileiros é indiretamente ridicularizada no documentário.
Se os norte-americanos não tivessem feito a cabeça do Brasil, com propaganda e mídia paga, com passeatas enormes, os militares, sem aquela preparação anterior, teriam tomado de maneira tão fácil o poder?
E tinha um palco mundial por trás que era a Guerra Fria, União soviética de um lado e os EUA do outro. Agora não tem nada disso.
Volta-se ao momento. Muitos acham que Bolsonaro tem que atropelar o Congresso, STF. mídia, universidades ou quem pensa diferente. E aí, o que vai fazer? Resolve o problema da pobreza, do desemprego? Vai ter apoio do exterior, como se teve lá atrás? Vai repetir pela direita o que está ocorrendo na Venezuela?
A parte séria e sensata das Forças Armadas não iria numa aventura dessas. Sabe que não pode, como acreditam alguns, resolver os tantos problemas nacionais na caneta e no grito.
Alfredo da Mota Menezes é Analista Político
E-mail: pox@terra.com.br Site: www.alfredomenezes.com

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