Vinicius Bruno
O pronunciamento do prefeito Emanuel Pinheiro, justificando atrasos nas obras de sua gestão como efeito de magia negativa, ou como ele mesmo disse - "macumba" - por parte de vereadores da oposição traz a tona um discurso preconceituoso e reducionista.
Primeiro, que macumba é um instrumento musical africano, que se parece muito com o "ganzá" ou "reco-reco" que é utilizado no Siriri e Cururu mato-grossense.
A palavra macumba acabou se tornando um termo pejorativo para designar religiões ou práticas religiosas de Matriz Africana.
O tom empregado pelo prefeito foi generalista, preconceituoso e ofensivo. Emanuel se referiu ao "terreiro" como local de prática de magia negativa. E, isso, é uma mentira.
Não quero aqui negar que existem pessoas que se utilizam da magia para praticar o mal. Esses indivíduos não entenderam o sentido de religiões como a Umbanda ou o Candomblé, cuja finalidade é o aperfeiçoamento espiritual e sua consequente evolução.
Além do mais, que o conceito de "mal" é bastante relativo, e não é raro ver líderes religiosos de outras denominações "amaldiçoando" ou ameaçando fiéis com castigos divinos por não contribuírem com o dízimo, por exemplo.
Terreiros são templos religiosos onde se cultua o Sagrado. Mas é evidente que após mais de dois séculos de preconceito e discriminação contra religiões de origem negra, preconceitos estruturais acabam sendo muito mais difíceis de serem combatidos.
É lastimável também o sensacionalismo na forma como a imprensa tratou o caso. Eu, como jornalista, fico envergonhado quando vejo matérias que apenas reproduzem o preconceito declarado por parte de alguém que deveria zelar e administrar a coisa pública com responsabilidade.
Agora como Candomblecista, digo ao senhor prefeito Emanuel Pinheiro e a quem quer que seja, que é muito fácil ofender religiões que já estão acostumadas a viver às margens da sociedade. Mas ninguém ousa ofender religiões cristãs, principalmente as evangélicas, pois sabem que o peso eleitoral dessas seitas tem valido muito nas urnas.
Então, rendemos graças à Santa Hipocrisia, ela que é irmã de outra Santa, a Ignorância, mas, àqueles que quiserem pensar diferente, que encontrem a consciência tranquila nos berços da verdade, do conhecimento e da sabedoria.
Vinicius Bruno é Jornalista e Candomblecista

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