Eduardo Gomes
Finca-Faca é um dos principais rios formadores do Lago de Manso. Em 1976 não havia ponte sobre ele na estradinha que liga Nova Brasilândia (que era chamada de Fica-Faca, grafia parecida com a do rio) a Planalto da Serra. A travessia nas águas baixas era tranquila e virava ponto para refrescar a pneuzama dos possantes. O arroz e o famoso feijão da região eram transportados em caminhões tocos e com meia carga por conta das desafiadoras subidas. À época, ambas as localidades não eram cidades e enfrentavam graves problemas: o vácuo do Estado e a insegurança jurídica do mosaico fundiário rural.
Mais de 40 anos depois o Estado continua quase tão ausente quanto antes em Planalto da Serra e Nova Brasilândia. Leio com tristeza sobre os assassinatos de dois fazendeiros, o pai Tirço Bueno Prado, e seu filho Joneslei Bueno Prado, crimes esses aos quais se somaram outros, que vitimaram o vaqueiro Claudinei Pinto Maciel e o advogado Sílvio Ricardo, que foi decapitado.
O mar de sangue foi promovido com crueldade por uma quadrilha que queira a terra de Tirço e que fez as execuções para se apossar de sua área rural. Também com tristeza observo o pequeno espaço jornalístico a esse pavoroso caso, ocorrido em 2016 e recentemente elucidado. Mais triste ainda fico diante da frieza e da indiferença da Federação da Agricultura e Pecuária (Famato) com a martirização das quatro vítimas.
Entendo que tempo é saca-rolhas da verdade. Durante anos li manchetes sobre a freira Leonora Brunetto, da região de Nova Guarita e Peixoto de Azevedo. Uma notícia dava conta de que ele estaria marcada para morrer; outra que pistoleiros a seguiam; mais ainda que fazendeiros a esfolariam... Leonora nunca sofreu um arranhão. A única vítima da violência em sua base de atuação foi o fazendeiro Sebastião Neves de Almeida, o Chapéu Preto, que foi baleado por posseiros. Detalhe: Chapéu Preto é pintado como demônio pelos defensores dos que avançam sobre terra naquela região. A tentativa de assassinato de Chapéu Preto não rendeu manchete tanto quanto o caso de Planalto da Serra.
Há um circo armado contra quem produz no campo. Enquanto isso a Famato encastelada e mordomizada não abre a boca em defesa do produtor nem do pecuarista. Em Mato Grosso quem ganha o pão trabalhando da porteira pra dentro somente é reconhecido pela Famato na hora em que ela nhapa sua contribuição rural. Por analogia pode-se dizer que o mesmo acontece com todo o Sistema S, que não passa de mamata para abrigar figuras que coabitam na penumbra do poder, a exemplo de Pedro Nadaf, que dominou a Fecomércio e foi um dos tentáculos do governo Silval.
O Brasil que não dá certo não é apenas o país de Dilma nem o de Temer. É o torrão do texto de conveniência, das entidades do oportunismo. É também a terra de Planalto da Serra com o vácuo do Estado. Pra isso acabar o povo tem que mudar. Descansem em paz Tirço, Joneslei, Claudinei e Sílvio!
Eduardo Gomes de Andrade é jornalista

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