A ironia aristotélica
A ironia pode parecer relacionada ao humor, mas sua trajetória filosófica revela aspectos mais perturbadores. Uma frase que parece inofensiva pode ocultar inteligência, crítica, defesa, desprezo ou poder. Quem ri de algo não revela apenas o que é objeto de riso: revela também uma sociedade.
A visão de Aristóteles é especialmente interessante. Na Ética a Nicômaco, ao estudar a interação do sujeito com a sua própria verdade, coloca a ‘eironeía’ como antônimo da ‘alazoneía’. De um lado, a pessoa que amplifica suas qualidades; do outro, a que as minimiza. Entre eles estaria o verdadeiro eu, que se apresenta sem exageros nem falsa humildade.
A ironia aristotélica, por conseguinte, não se alinha exatamente ao significado contemporâneo de afirmar algo com a intenção de significar outra coisa. Ela tem a ver com dissimulação, especialmente com a tendência de alguém subestimar ou menosprezar o que sabe ou o que tem. No entanto, Aristóteles reconhece uma distinção crucial: essa postura pode surgir tanto da sofisticação quanto da estratégia. Há uma modéstia que não é ostentação, mas há uma ocultação que visa causar um efeito em alguém.
É exatamente nessa incerteza que a ironia se mantém há séculos.
Ao contrário, o irônico nunca revela por completo o que realmente pensa. Mantém um espaço entre a palavra e a intenção. Quem ouve deve percorrer essa distância para se apropriar do sentido. É por isso que toda ironia cria uma certa cumplicidade: uns entendem; outros ficam de fora.
Neste aspecto, a ironia pode ser considerada um fenômeno de natureza sociológica.
Os grupos sociais desenvolvem seus próprios códigos de humor, referências e sugestões. Dar risada da mesma coisa muitas vezes quer dizer pertencer ao mesmo grupo. Mas toda comunidade formada pelo riso também pode gerar um excluído. A mesma ironia que une aqueles que a entendem pode servir para envergonhar quem se torna alvo dela.
Assim, podemos afirmar que há uma política velada no riso.
A ironia serviu, por séculos, como arma dos despossuídos de poder. Quando se arriscava a segurança ao falar abertamente, insinuar se tornava uma maneira de resistir. Escritores, artistas e cidadãos que enfrentaram a censura descobriram que certas verdades resistem melhor quando expressas de forma contrária. O humor tem a capacidade de abrir portas que a denúncia direta não abre.
Mas a ironia muda de natureza quando utilizada pelos poderosos. Aquilo que, nas mãos do oprimido, pode representar resistência, nas mãos de quem ocupa posição dominante pode converter-se em humilhação. O riso deixa, então, de desafiar hierarquias e passa a reafirmá-las.
Talvez Aristóteles ainda ofereça uma resposta. A virtude exige medida. Nem toda ironia é crueldade, assim como nem toda seriedade é sabedoria. Há uma ironia capaz de revelar contradições, desarmar arrogâncias e impedir que o poder se traduza em seriedade.
Uma sociedade madura precisa conservar o direito de rir de si mesma. Talvez necessite reaprender algo ainda mais difícil: saber quando o riso ilumina a verdade e quando apenas esconde a violência. Surge, assim, uma sociedade na qual a inteligência pode ser confundida com a capacidade de zombar.
Porque algumas palavras ferem justamente enquanto todos estão rindo.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) ocupa a Cadeira 7 da Academia Mato-Grossense de Letras (podbedelhar@gmail.com).