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23 Oct 2026 08:07

O Brasil que fica fora da análise

O Brasil que fica fora da análise
Crédito: Foto: Assessoria

“A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.” Poema Verdade, Carlos Drummond de Andrade (1984). No fragmento de Drummond, só meia pessoa consegue atravessar a porta da verdade. Essa imagem ajuda a pensar sobre a leitura parcial dos indicadores econômicos, sociais e fiscais do Brasil.

Uma análise pode enganar sem inventar um único número. Quando uma postagem no Instagram amontoa dados sobre criação de impostos, morador de rua, dívida pública e pedidos de falência, você confere as fontes e os períodos antes de compartilhar?

A simples reunião de números numa imagem não demonstra correlação. Mesmo uma correlação estatística não estabelece, sozinha, causalidade (IPEA,2018). Identificar causas exige comparações adequadas e o exame de outras explicações. Os exemplos abaixo descrevem diferentes dimensões do país; atribuir seus resultados a uma política ou a um governo exigiria outra investigação.

A taxa anual de desocupação passou do pico de 14,0% em 2021, durante a pandemia, para 5,6% em 2025, o menor patamar da série iniciada em 2012. No trimestre de junho a agosto de 2026, foi de 5,3%, mínimo entre os trimestres encerrados em agosto, com recorde de 103,5 milhões de pessoas ocupadas (IBGE, 2026).

Em 2024, a pobreza atingiu 23,1% da população, o menor patamar da série iniciada em 2012. No pico, em 2021, chegou a 36,8% (IBGE, 2025). Essa queda não dispensa um exame próprio da população em situação de rua, que a pesquisa domiciliar não mede diretamente (IBGE, 2014).

O Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014. O relatório da FAO de 2022 registrou o retorno do país, conforme documenta o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (2023). Em 2025, o Brasil saiu novamente (Meza, 2025), e o relatório de 2026 confirmou que permanece fora do mapa . A saída corresponde a uma classificação estatística da subalimentação, não à ausência de fome (FAO, 2025).

Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o número de vítimas de homicídio doloso caiu 10,5% em 2025, frente a 2024; o de latrocínio, 17,58%. As ocorrências de roubo de carga diminuíram 16,70%, enquanto o número de vítimas de feminicídio aumentou 3,61%. Uma frase genérica sobre “a violência” não explica esses movimentos.

Nas contas públicas, os dados do Banco Central do Brasil (2026) mostram que a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto de 2026, com alta de 4,2 pontos percentuais no ano. Sua trajetória exige examinar juros, resultados fiscais e crescimento. O rótulo “Brasil tá quebrado” não substitui essa análise.

Com base nos fechamentos da B3 (2026), o Ibovespa acumulou alta nominal de 89,8% desde o início de 2023 até 20 de outubro de 2026. Em 2025, o investimento direto no país somou US$ 85 bilhões, o maior valor nominal anual desde 2014 (Banco Central do Brasil, 2026). Esses resultados também precisam entrar na avaliação, mas não constituem prova de equilíbrio fiscal.

Nenhuma análise abarca toda a realidade. A escolha dos indicadores precisa fazer sentido para a pergunta proposta. Quem discute condições de vida deve olhar para trabalho, renda, preços e alimentação. Quem examina as contas públicas precisa considerar dívida, receitas, despesas e juros. A cobrança de rigor deve alcançar tanto o dado que nos agrada quanto o que nos incomoda.

Jonathan Swift (1801, p. 106) escreveu: “O raciocínio nunca fará um homem corrigir uma opinião errada que ele não adquiriu pelo raciocínio.” Leio essa provocação como uma cobrança. Antes de compartilhar a próxima postagem, cobre de si o mesmo rigor que cobra de quem discorda de você.

Em “A montanha por achar”, Fernando Pessoa (1990, p. 171) escreveu:

A verdade, se ela existe,

Ver-se-á que só consiste

Na procura da verdade,

Porque a vida é só metade.

 

Fernando Wosgrau é administrador, mestre em Agronegócios, professor de Administração, consultor de empresas e autor do Guia de Acompanhamento da NR-1 cartilhanr1.com.br

 

Referências:

B3. Índice Ibovespa (Ibovespa): estatísticas históricas. São Paulo. Disponível em: https://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/indices/indices-amplos/indice-ibovespa-ibovespa-estatisticas-historicas.htm.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas do setor externo. Nota para a imprensa. Referência: agosto de 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/estatisticas/hist_estatisticassetorexterno/202609_Texto_de_estatisticas_do_setor_externo.pdf.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas fiscais. Brasília.Nota para a imprensa. Referência: agosto de 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/estatisticas/hist_estatisticasfiscais/202609_Texto_de_estatisticas_fiscais.pdf.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Investimentos diretos no país – IDP – mensal – líquido.Disponível em: https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/22885-investimentos-diretos-no-pais---idp---mensal---liquido.

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Mapa da Segurança Pública 2026. Infográficos.Dados do Sinesp referentes a 2024 e 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/estatistica/download/dados-nacionais-de-seguranca-publica-mapa/infograficos-mapa-2026.pdf/@@download/file.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Plano Brasil Sem Fome. Disponível em: https://mds.gov.br/webarquivos/MDS/2_Acoes_e_Programas/Brasil_sem_Fome/Plano/Brasil_Sem_Fome.pdf.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Revista 20 anos Bolsa Família.Disponível em: https://www.mds.gov.br/webarquivos/MDS/2_Acoes_e_Programas/Bolsa_Familia/Eventos/Revista_Comemoracao_20_anos_BF.pdf.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil et al. Avaliação de políticas públicas: guia prático de análise ex post. Brasília, 2018. v. 2. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/entities/book/61a5b71e-5257-46bf-8670-515bfcd381b6.

FAO. Entrevista com o economista-chefe da FAO: análise da segurança alimentar e nutrição 2025.Disponível em: https://www.fao.org/brasil/news/detail/Entrevista-com-o-economista-chefe-da-FAO---An%C3%A1lise-da-Seguran%C3%A7a-Alimentar-e-Nutri%C3%A7%C3%A3o-2025/pt.

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: notas metodológicas. Rio de Janeiro: IBGE, 2014. v. 1. Disponível em: https://ftp.ibge.gov.br/Trabalho_e_Rendimento/Pesquisa_Nacional_por_Amostra_de_Domicilios_continua/Notas_metodologicas/notas_metodologicas.pdf. Acesso em: 21 out. 2026.

IBGE. 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2023 e 2024. Agência de Notícias IBGE, 3 dez. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45344-8-6-milhoes-de-pessoas-sairam-da-pobreza-entre-2023-e-2024. Acesso em: 21 out. 2026.

IBGE. Desocupação cai para 5,1% em dezembro, e 2025 tem melhores resultados da série histórica. Agência de Notícias IBGE, 30 jan. 2026a. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica. Acesso em: 21 out. 2026.

IBGE. PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6%, enquanto taxa de subutilização foi 14,5%. Agência de Notícias IBGE, 30 jan. 2026b. Atualizado em: 27 mar. 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45759-pnad-continua-em-2025-taxa-anual-de-desocupacao-foi-de-5-6-enquanto-taxa-de-subutilizacao-foi-14-5. Acesso em: 21 out. 2026.

IBGE. PNAD Contínua: taxa de desocupação é de 5,3% e taxa de subutilização é de 13,1% no trimestre encerrado em agosto. Agência de Notícias IBGE, 29 set. 2026c. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/48148-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-5-3-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-1-no-trimestre-encerrado-em-agosto. Acesso em: 21 out. 2026.

MEZA, Jorge. Brasil voltou a sair do Mapa da Fome. Nações Unidas Brasil, 14 ago. 2025. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/299851-artigo-brasil-voltou-sair-do-mapa-da-fome.

SWIFT, Jonathan. The works of the Rev. Jonathan Swift. Edição de John Nichols. London: J. Johnson et al., 1801. v. 5, p. 106. Disponível em: https://en.wikisource.org/wiki/Page:The_Works_of_the_Rev._Jonathan_Swift,_Volume_5.djvu/114.

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