Da riqueza à liberdade: o elo que falta à prosperidade em Mato Grosso
Mato Grosso não sofre de escassez de riqueza. O desafio é outro: fazer com que a extraordinária capacidade de produção do Estado percorra uma cadeia mais completa até transformar-se em segurança econômica, patrimônio, mobilidade e liberdade real para um número muito maior de pessoas.
Os números ajudam a compreender o problema. O PIB estadual alcançou R$ 273 bilhões em 2023, com crescimento real de 12,9%. No segundo trimestre de 2026, o desemprego estava em apenas 2,2%. Ao mesmo tempo, cerca de 1,5 milhão de adultos encontravam-se negativados em Mato Grosso e 83,3% das famílias de Cuiabá declaravam algum tipo de dívida.
São indicadores distintos — endividamento familiar não é sinônimo de inadimplência —, mas, observados em conjunto, revelam elevada fragilidade financeira convivendo com uma economia vigorosa. Não é propriamente uma contradição. É um problema de transmissão da prosperidade.
Crescimento e emprego melhoram o fluxo econômico. Mas famílias podem entrar numa recuperação carregando dívidas antigas, pouca reserva, baixo patrimônio e despesas essenciais elevadas.
A distinção fundamental é simples: renda é fluxo; dívida e patrimônio são estoques. O salário entra todos os meses. A dívida permanece até ser paga. O patrimônio precisa ser construído ao longo do tempo.
Por isso, aumento de renda não se converte imediatamente em segurança. Parte do ganho pode ser absorvida por alimentação, aluguel, energia, transporte, saúde, prestações e juros.
Prosperidade não depende apenas de quanto entra no orçamento. Depende de quanto permanece depois do essencial e do serviço da dívida. Essa renda disponível é o primeiro elo de uma cadeia mais ampla: crescimento, renda, renda disponível, redução das dívidas, reserva, patrimônio, mobilidade e autonomia.
O atual ciclo de endividamento brasileiro mostra como essa cadeia pode ser interrompida. O movimento começou antes da pandemia, agravou-se entre 2020 e 2022 e ganhou nova força em 2025 e 2026.
Na primeira fase, instabilidade de renda, inflação e juros fizeram do crédito uma forma de financiar o cotidiano. Na segunda, emprego e renda já haviam melhorado, mas muitas famílias ainda carregavam passivos anteriores e pouca reserva.
Renegociar ajuda, mas não elimina necessariamente a dívida. Um passivo vencido pode apenas transformar-se em novas parcelas que continuarão reduzindo a renda disponível.
Por isso, a primeira etapa de uma política de prosperidade precisa ser recuperar os balanços das famílias. A Lei do Superendividamento já oferece instrumentos para conciliação global, reorganização de passivos e preservação do mínimo existencial.
Em Mato Grosso, essa política poderia integrar Procon, Defensoria, Judiciário, municípios, instituições financeiras e entidades da sociedade civil. Mas "limpar o nome" não é suficiente. O objetivo deve ser permitir que a família pague o essencial, reduza dívidas caras, interrompa a dependência do crédito e comece a formar reserva.
Chegamos aqui à dimensão patrimonial. No Brasil, os 10% de maior patrimônio concentram aproximadamente 70,1% da riqueza, enquanto a metade inferior detém somente 2,4%.
Em Mato Grosso, embora faltem dados desagregados sobre distribuição de ativos, os indicadores disponíveis sugerem padrão semelhante: elevada concentração fundiária e empresarial, com parte significativa da população sem propriedade formal além da moradia — quando a possui.
Isso não significa que riqueza seja ilegítima. Patrimônio pode resultar de trabalho, poupança, inovação, investimento e risco empresarial. Mas patrimônio oferece algo além de riqueza. Oferece tempo, proteção e capacidade de escolha.
Quem possui casa, terra, investimentos ou capital empresarial pode atravessar uma emergência, esperar por melhores oportunidades, estudar, mudar de trabalho, oferecer garantias ou suportar os primeiros meses de um empreendimento. Quem não possui ativos decide frequentemente sob urgência.
Nesse sentido, patrimônio funciona como estoque de liberdade econômica. Duas pessoas podem ter formalmente o mesmo direito de abrir uma empresa. Mas aquela que possui capital, garantias e reserva começa em condições muito superiores.
É por isso que liberdade econômica não pode ser analisada apenas como ausência de proibições. Precisa incluir mobilidade: a possibilidade de quem começa com pouco adquirir conhecimento, capital, contratos e patrimônio ao longo da vida.
Isso não exige combater grandes empresas ou propriedades. Escala, produtividade, investimento e inovação são fundamentais. O problema começa quando vantagens econômicas transformam-se em barreiras artificiais para impedir novos concorrentes. Concorrência é, portanto, infraestrutura da liberdade econômica.
Mato Grosso tem uma oportunidade excepcional de aplicar essa lógica sem desmontar sua principal vantagem competitiva. O agronegócio pode ser plataforma para uma economia mais diversificada: agroindústria, biocombustíveis, química verde, máquinas, software, logística, energia, armazenagem, pesquisa e serviços especializados.
Não se trata de produzir menos commodities. Trata-se de fazer mais valor, conhecimento, tecnologia e propriedade empresarial permanecerem no Estado.
No entanto, é preciso reconhecer os gargalos que impedem essa transição. Entre eles, infraestrutura logística insuficiente para escoamento de produtos com maior valor agregado, déficit de capital humano especializado em áreas técnicas e de gestão, baixa densidade de ecossistemas de inovação fora dos grandes centros e concentração de crédito e assistência técnica em grandes produtores. Sem enfrentar esses estrangulamentos, a diversificação permanecerá discurso.
Para isso, acesso a capital é decisivo. Quem já possui patrimônio oferece garantias e financia-se melhor. Quem começa sem ativos paga mais ou sequer consegue crédito.
Fundos garantidores podem funcionar como pontes, reduzindo a dependência de garantias patrimoniais tradicionais. Mas aqui reside um risco real: a captura desses fundos por grupos já estabelecidos, que possuem maior capacidade de articulação política e informação.
Para mitigá-lo, são necessários governança transparente com participação de múltiplos atores, critérios objetivos de elegibilidade focados em quem realmente não tem acesso, avaliação independente de resultados e limites de exposição por tomador e setor. Sem esses mecanismos, o fundo pode transformar-se em mais uma porta de entrada para quem já está dentro.
E há uma condição essencial: crédito sem produtividade e mercado pode simplesmente transformar exclusão em endividamento empresarial. Por isso, financiamento precisa caminhar com tecnologia, gestão, qualificação e demanda.
Pequenos negócios precisam entrar nas cadeias de maior produtividade. Programas de fornecedores podem conectar micro e pequenas empresas às agroindústrias, cooperativas, logística, tecnologia, grandes produtores e poder público. O objetivo não é proteger o pequeno da competição. É oferecer condições para que ele consiga competir.
A mesma lógica deve orientar os incentivos fiscais. Atrair investimentos continua necessário, mas um incentivo público deveria ser avaliado também por salários, inovação, qualificação, fornecedores locais e valor agregado produzido no território.
O benefício passa a funcionar como contrato de desenvolvimento: previsibilidade para o investimento privado e resultados mensuráveis para a sociedade. Mato Grosso já possui experiência com incentivos ao agronegócio e à industrialização. O próximo passo é condicioná-los, de forma progressiva e previsível, a contrapartidas verificáveis — sem burocracia excessiva, mas com responsabilidade.
O trabalho também precisa mudar de função. Depois de reduzir o desemprego, o desafio passa a ser elevar produtividade, remuneração e capacidade de acumulação. A trajetória desejável é: emprego, produtividade, renda maior, excedente, poupança e patrimônio.
Isso exige investimento contínuo em educação técnica, formação profissional, serviços de extensão e difusão tecnológica — especialmente para pequenos e médios produtores e empresas.
E existe outro instrumento frequentemente subestimado: reduzir o custo de viver. Habitação, regularização fundiária, transporte, energia, creches, saúde e saneamento aumentam renda disponível quando reduzem despesas permanentes. Política social, nesse sentido, também pode ser política de formação patrimonial.
Aqui, a educação financeira merece atenção especial. Incluir noções de orçamento, crédito, poupança e investimento desde o ensino médio — integradas a programas de qualificação profissional — pode alterar trajetórias de endividamento e ampliar a capacidade de acumulação ao longo da vida.
Nada disso elimina a responsabilidade individual. Famílias precisam conhecer suas dívidas, evitar crédito excessivamente caro, preservar despesas essenciais, formar reserva e transformar excedentes em ativos. Empresas precisam investir, inovar e elevar produtividade. O Estado deve criar ambiente competitivo, segurança jurídica, infraestrutura e mecanismos de acesso. Nenhum desses atores, isoladamente, resolve o problema.
Também precisamos evitar atalhos: crédito politizado, subsídios permanentes, protecionismo, incentivos sem metas ou intervenções patrimoniais imprevisíveis produzem dependência, desperdício e insegurança jurídica. A agenda precisa ser simultaneamente pró-investimento, pró-concorrência e pró-mobilidade.
E precisa reconhecer o tempo da transformação. É possível ampliar crédito produtivo, qualificação, fornecedores e agregação de valor em poucos anos. Mas alterar significativamente a capacidade patrimonial e a mobilidade econômica de uma sociedade exige continuidade por uma década ou mais.
Por isso, talvez precisemos acrescentar uma pergunta ao debate sobre desenvolvimento. Não apenas: quanto Mato Grosso produz? Mas: quanto dessa riqueza consegue transformar-se em segurança, patrimônio e capacidade de escolha para quem vive aqui?
Mato Grosso já provou que sabe produzir riqueza. O próximo salto é transformar essa riqueza em capacidade disseminada de acumular. Não precisamos fazer quem chegou ao topo descer. Precisamos ampliar as portas de entrada, preservar mercados competitivos, facilitar acesso produtivo ao capital e construir caminhos para que muito mais pessoas possam subir.
Prosperidade verdadeira não é impedir que alguns construam muito. É criar condições para que muito mais pessoas consigam construir o próprio patrimônio e ampliar sua liberdade de escolha. Porque liberdade econômica plena não é apenas liberdade para ter. É, sobretudo, liberdade para construir.
Paulo Lemos, Advogado, Analista e Articulador.