Inês é morta
É decepcionante, afinal, recebemos o primeiro aviso em 2019, e era tempo mais do que suficiente para todos, isso mesmo, todos os envolvidos na cadeia de produção da carne bovina brasileira encontrarem uma maneira de continuar produzindo com excelência e, ao mesmo tempo, atender às exigências do mercado europeu. Mas Inês é morta!
E agora, em vez de lamentarmos o óbvio, precisamos nos concentrar em como voltar a acessar o mercado que melhor remunera nossos cortes e que, mais do que isso, manda um recado forte ao mundo de que a carne do Brasil tem qualidade, volume e capacidade de atender a qualquer comprador, e não há tempo para choro ou para discursos vazios sobre injustiças comerciais.
Há tempo para ação concreta, e olhando para o futuro, é preciso reconhecer que hoje temos uma ferramenta aprovada tanto pela autoridade sanitária nacional quanto pelo comissário europeu: o protocolo de garantia de não uso de antimicrobianos, elaborado pela ABCAR, CNA e ABIEC. Pois então, que se faça uso dela! Ao invés de gastar energia negando o fato de estarmos fora do mercado europeu — como se negar a realidade fosse mudá-la — temos que fomentar o uso desse protocolo, que é voluntário e, portanto, participa aquele que enxerga valor nele.
É o momento de olhar com seriedade para as novas tecnologias que garantem a eficiência da terminação dos animais! O Brasil não pode mais se pautar apenas pelo seu volume de produção como se fosse um trunfo eterno.
Já passou da hora de implantarmos as ferramentas disponíveis para produzir volume e qualidade atendendo a qualquer requisito do importador. Chega de tratarmos a rastreabilidade, o bem-estar animal e a sustentabilidade como meros enfeites de marketing! Esses itens são pré-requisitos inegociáveis em qualquer mercado que se preze, e quem não enxergar isso está fadado a ficar para trás, assistindo outros países ocuparem o espaço que deveria ser nosso.
É uma verdadeira afronta à inteligência do setor que tenhamos deixado essa situação chegar a esse ponto, até porque, tivemos anos de aviso, anos de discussão, anos de oportunidades para nos anteciparmos e nos adequarmos proativamente. Em vez disso, preferimos a postura defensiva, o discurso de que as exigências europeias seriam barreiras comerciais disfarçadas, quando na verdade poderiam ter sido encaradas como um incentivo para modernizarmos nossa produção.
Agora, colhemos o resultado dessa inércia: portas fechadas, reputação arranhada e um prejuízo que poderia ter sido evitado. A Argentina e o Uruguai agradecem.
Portanto, a mensagem precisa ser clara e incisiva: o tempo de espernear passou. O foco agora deve ser em ação coordenada, em adesão maciça ao protocolo, em investimento em tecnologia de ponta e em uma mudança cultural dentro das fazendas, frigoríficos e fábricas de insumos.
Precisamos provar, com números e práticas concretas, que somos capazes de produzir em escala sem abrir mão da excelência produtiva, sanitária e ambiental. Não podemos nos dar ao luxo de esperar mais um ciclo de alertas para então agir. A exigência do mercado europeu não é um capricho; é um espelho do que o consumidor global cada vez mais demanda, e quem não se mirar nele ficará obsoleto.
Chega de discursos vazios e de esperar que o problema se resolva sozinho.
O Brasil precisa acordar, unir forças e mostrar que a nossa carne é, sim, digna dos melhores mercados do mundo, mas isso só acontecerá se deixarmos de lado a complacência e abraçarmos, de vez, a modernidade e a transparência que o momento exige. Inês está morta, mas o futuro pode ser escrito com novas letras, desde que tenhamos liderança, coragem e competência para fazê-lo agora.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.