Gonçalo Antunes de Barros Neto
Fiquei aqui desde antes dos caminhos terem nome. Não me apresso. Conto os dias pela poeira que volta e pelos passos que passam. Quem me chama de inerte não me ouviu ceder ao musgo nem aprendeu o peso das esperas.
Eu sou teu vizinho que se levanta. Também não corro: espreguiço-me em anéis, círculo após círculo. Cada vento escreve em mim uma sílaba. Às vezes, quando o machado ronda, pergunto-me se vale a pena crescer. Então escuto teus silêncios — e prossigo.
Eu chego todos os dias como se fosse a primeira manhã do mundo. Não trago respostas, trago claridade. A claridade é o que nos permite formular as perguntas certas. Pedra, tua imobilidade acende sombra; Árvore, tua dança revela direção.
Eu não tenho forma, mas desenho vales. Quando me chamam fraca, sorrio: mostro-lhes o desfiladeiro que escavei com carícias repetidas. Pedra, tu me resistes; eu te polio. Árvore, tu me bebes; eu te erguo. Sol, tu me evapas; eu volto em chuva. Somos uma conversa que o mundo não interrompe.
Concordo, Água: não resisto por soberba, resisto por ofício. Ensinar devagar é meu mester. Cada fenda que me abres é uma lição de humildade. Aprendi que perder bordas é ganhar histórias.
E eu aprendi contigo, Pedra, a vertical paciência. Aprendi contigo, Água, o segredo da leveza que sustenta o peso. E contigo, Sol, a arte de repartir: tu me dás energia e eu devolvo sombra, fruto, repouso, pássaro.
Sombra também é uma forma de luz, Árvore. Não esqueçam: não existe meio-dia sem madrugada, nem verão sem inverno. A claridade carrega a memória do escuro, como um rosto carrega a memória do riso e do pranto.
Quando caio, muitos se escondem. Quando falto, todos aprendem meu nome. Eu me esgueiro por fendas de dúvida, reúno povoados, apago incêndios, acendo moinhos. Ao deixar-me cair, decido subir de novo: eis minha constância de metamorfose.
Metamorfose também me visita, água, embora por outros calendários. Trago, no ventre, brilho de minerais e a antiga febre do vulcão. Sou o paradoxo: peso que protege sementes, dureza que abriga o ninho. Às vezes, é preciso ser muro; às vezes, é preciso tornar-se degrau.
Degrau para quem, Pedra?
Para os pequenos que sobem. Para os cansados que se assentam. Para os que tropeçam e recomeçam. Quem não se curva à utilidade, curva-se ao orgulho; e orgulho é poeira que não vira solo.
Escutem: lá vem um viajante. Carrega pressa e um mapa que não sabe ler. Passará por nós sem nos ver? Afirmou o sol, seguido pela água e pela pedra.
Se ele beber, me reconhecerá. Se se lavar, lembrará que a pele é também fronteira de luz. Se chorar, serei eu o sal que devolve peso ao invisível.
Se ele descansar à minha sombra, ouvirá os pássaros, essas gramáticas do ar. E talvez perceba que a vida cresce onde não se grita.
Se ele se sentar sobre mim, entenderá que o chão não é obstáculo, é ponto de partida. O que parece fim é apenas superfície.
Se ele nos perguntar qual caminho tomar, diremos: escolha aquele aonde você possa voltar. Caminho bom é o que não queima pontes nem seca fontes nem derruba raízes, voltou a exclamar o Sol.
Mas e se ele insistir na pressa? Perguntou a Água, seguida da Árvore, da Pedra e do Sol.
Daremos a ele a sombra de um minuto — às vezes, um minuto de sombra salva uma vida de verão.
E lhe emprestarei silêncio. O silêncio é um mestre que não humilha.
Eu lhe darei crepúsculo. O crepúsculo é a cortesia do dia com a noite: ninguém expulsa ninguém, apenas se cede lugar.
E, quando ele voltar, talvez traga sede de outra coisa. Então, eu direi: aprende a ser curso, não charco. Charco guarda rancores; curso leva histórias. Voltou a Água a levantar reflexão.
Eu lhe ensinarei a fazer perguntas com os braços: erguer-se, acolher, oferecer, despedir-se. Crescer é aprender a dizer “basta” e “vem” com a mesma clareza.
E eu lhe ensinarei a durar sem endurecer.
Eu lhe ensinarei a arder sem consumir.
A Água insiste: eu lhe ensinarei a ceder sem desaparecer.
Eu lhe ensinarei a florescer sem prometer eternidade.
Alguns dirão que falamos alegorias, Árvore. Deixemos que digam. A linguagem dos elementos é trabalho de séculos; quem a quer em cinco minutos não busca sentido, busca atalho.
Ainda assim ofereçamos sinais. Pedra, dá teu peso; Árvore, dá tua sombra; Água, dá tua música. Eu darei o caminho do meio-dia para quem perdeu o norte.
E, quando a seca vier — porque virá —, lembraremos que a memória é um poço: quanto mais partilhada, menos se esgota.
Água, quando a tempestade vier — porque virá — lembraremos que raízes não servem apenas para sugar, mas para abraçar a terra.
E, quando a noite vier — porque virá —, lembraremos que até as constelações são pedras que aprenderam a brilhar no escuro.
Disse o Sol, em tom de despedida: então, que o viajante leve este conselho escrito em quatro caligrafias:
— Seja firme como a Pedra, sem perder a escuta.
— Seja vivo como a Água, sem perder o leito.
— Seja amplo como o Sol, sem perder a medida.
— Seja paciente como a Árvore, sem perder o impulso.
Assustada, a Água retrucou: e se ele esquecer?
Nós repetiremos. O mundo é uma escola que não cansa de lições.
É por aí, Árvore, até a poeira entende quando o tempo fala. Disse a Pedra, seguida pelo Sol.
E o tempo? Ah, o tempo! Ele fala por nós quando nos deixamos ouvir.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) é da Academia Mato-Grossense de Letras (Cadeira 7) e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT.

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