Frederico Murta
Passei a vida inteira indignado com escândalos de corrupção: dinheiro na cueca, no paletó, nas malas. Acredito, inclusive, que foi essa indignação que acabou me trazendo para a polícia. Escolhi a carreira de delegado para tentar fazer algo diferente. Nunca consegui aceitar a normalização dessa roubalheira que sangra o Brasil, em especial no meio político.
Hoje, entendendo melhor como funciona a engrenagem e os bastidores do jogo, posso dizer que a indignação é ainda maior. Assistir ao que aconteceu na última semana na Câmara dos Deputados, com a aprovação da chamada PEC da Blindagem, e permanecer calado, é impossível.
Vimos vários representantes da direita venderem a confiança de cada voto que receberam, sob a justificativa de proteção contra os desmandos do Supremo. Ocorre que essa não é a verdade — e sabemos disso. Qualquer um que tenha um mínimo de senso crítico percebe que o interesse é outro.
Nesse caso, não está em jogo o direito dos parlamentares exercerem seu mandato com liberdade, mas sim a criação de um salvo-conduto para a impunidade. Uma garantia extensiva a todos eles, para a prática de crimes de qualquer natureza. O que estava em discussão era apenas a perpetuação do velho sistema, no qual os parlamentares se protegem e buscam mecanismos para se manter no poder.
Mas o que mais me causou indignação desta vez nem foi a votação em si, nem mesmo a manobra regimental para inclusão do voto secreto. Afinal, disso já estamos acostumados a ver.
O que realmente me revoltou foi a encenação subsequente: deputados celebrando nas redes sociais uma pseudo-anistia coletiva logo após aprovarem a PEC, como se aquilo fosse apenas um detalhe irrelevante. Vídeos e comemorações de algo que não ocorreu, apenas para desviar o foco do que realmente havia acontecido.Infelizmente, até mesmo nomes relevantes da direita, que sempre admirei, tentaram justificar o injustificável.
A pauta da anistia é muito importante. A imensa maioria da população brasileira é solidária e reconhece que houve exageros nas punições do 8 de janeiro, e que a condenação do presidente Bolsonaro teve, sim, caráter político. Juiz, promotor e vítima personificados na mesma entidade dispensam maiores debates.
Agora, usar esse sentimento legítimo de indignação coletiva como cortina de fumaça para aprovar, a toque de caixa, um texto que amplia privilégios de forma genérica é trair a confiança do eleitor. Não há democracia sólida onde a corrupção é blindada.
A Lava Jato foi o maior suspiro de esperança da nossa sociedade no combate à corrupção. Ver sua dissolução foi um enorme baque. Diante disso, qualquer ato ou movimento no sentido de proteger ou facilitar esse tipo de prática deve ser combatido.
O erro foi tão grave que vimos, no último final de semana, manifestações da esquerda nas ruas com cartazes "anticorrupção". A que ponto chegamos!? Usando do mesmo subterfúgio, a esquerda misturou as pautas da anistia e da PEC da Blindagem. E a blindagem, de fato, é indefensável.
Eu sou de direita, convicto. Mas não sou ingênuo. Essa não é uma questão de ideologia nem de espectro político. É uma questão de coerência.
Frederico Murta é Delegado de Polícia Civil em Mato Grosso.

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