Cristhiane Brandão
Inovar deixou de ser um diferencial e passou a ser uma exigência. No atual cenário de rupturas tecnológicas, mudanças sociais e transformações aceleradas, a sobrevivência das empresas depende da capacidade de se reinventar. Mas como inovar com segurança, sem comprometer valores e resultados? A resposta está na governança.
Este artigo convida à reflexão sobre como a governança pode ser uma aliada estratégica da inovação, como um instrumento de direção, equilíbrio e construção de futuro. Inspirado no capítulo "Disrupção, Governança e Corporate Venture", do livro Governança Corporativa e Inovação (IBGC, 2018), de Maximiliano Carlomagno, e atualizado com dados da ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software), o texto propõe caminhos reais para que empresas familiares e conselhos de administração enfrentem o novo com método e propósito.
Por que inovar? Diversos exemplos emblemáticos mostram que ignorar a inovação pode levar até as empresas mais consolidadas à falência. Casos como Kodak, Nokia, Xerox, Blockbuster, Yahoo, Blackberry e Polaroid evidenciam que a resistência à transformação digital, o apego a modelos ultrapassados e a incapacidade de antecipar tendências foram fatais para organizações que um dia lideraram seus setores. Essas histórias reforçam que inovar não é apenas sobreviver, é permanecer relevante.
Segundo o estudo da ABES de 2024, 94% das empresas brasileiras reconhecem a importância da inovação tecnológica como parte da estratégia de crescimento. No entanto, apenas 37,7% possuem áreas estruturadas para promover a inovação internamente. O principal desafio apontado é a resistência cultural, que consiste no medo de errar e no foco excessivo em controle.
Isso revela o paradoxo enfrentado por muitas lideranças: sabem que precisam mudar, mas estão presas à lógica de preservação. Como destaca Carlomagno, "a boa governança deveria equilibrar a criação e a preservação de valor". Inovar não significa se expor cegamente ao risco, porém, criar um ambiente onde o risco seja conhecido, discutido e, quando necessário, assumido com responsabilidade.
O papel do conselho de administração é atuar além do retrovisor. Assim, ele deve assumir um papel ativo na agenda de inovação ao estimular a cultura de aprendizado, desafiar modelos de negócio ultrapassados, identificar tendências e apoiar decisões estratégicas orientadas ao futuro. Deste modo, a governança pode ser uma guardiã condutora do futuro do legado empresarial.
Carlomagno propõe um roteiro eficaz para os conselhos, que consiste em 1) Definir a estratégia de inovação: Onde inovar e por quê? 2) Estabelecer o apetite ao risco: Quais limites são aceitáveis? 3) Avaliar capacidades internas: Quais recursos e competências precisam ser desenvolvidos? Conectar-se ao ecossistema: Como ampliar parcerias com startups, universidades e fundos? 4) Mensurar e aprender: Como acompanhar a inovação com indicadores e flexibilidade?
O estudo da ABES alerta que a cultura organizacional ainda é a maior barreira à inovação no Brasil, o que compreende processos engessados, foco exclusivo em compliance e medo de errar. É papel da governança cultivar um ambiente seguro para que novas ideias floresçam e para que o erro, quando bem-intencionado, seja tratado como etapa do aprendizado.
A estratégia de corporate venture, que consiste em investir em startups e projetos inovadores, tem crescido nas empresas brasileiras, permitindo a inovação com agilidade, fora do core business, sem comprometer a operação principal. Mais de 50% das startups que se tornaram unicórnios no mundo receberam investimento de grandes empresas. O corporate venture se apresenta como ponte entre o presente sólido e o futuro em construção.
Para essa jornada, algumas perguntas ainda precisam ser feitas, entre elas, se estamos prontos para assumir riscos estratégicos e se eles estão bem calculados; se a nossa governança trata inovação como oportunidade ou ameaça; há realmente espaço para estruturas mais ágeis dentro da lógica tradicional? E por fim, se estamos formando sucessores com visão voltada ao futuro e à inovação.
O professor e escritor Peter Drucker dizia que "A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo". Portanto, inovar com governança é uma responsabilidade que busca garantir a relevância e sustentabilidade das organizações. Para empresas familiares, é também uma forma de proteger o legado, preparando o negócio para durar por gerações. Deixo o convite para vivermos juntos essa jornada!
Cristhiane Brandão é Conselheira de Administração, Consultora em Governança para Empresas Familiares e Vice-Coordenadora Geral do Núcleo Centro-Oeste do IBGC.

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