Paulo Lemos
Vivemos um tempo em que a ameaça de uma nova guerra mundial não é apenas um exercício de imaginação distópica, mas uma possibilidade concreta que atravessa os noticiários, os discursos políticos e os temores coletivos. Olhar para esse cenário a partir da psicanálise é, antes de tudo, reconhecer que a violência entre as nações não é apenas um problema de ordem geopolítica ou econômica. Trata-se de um sintoma humano, pulsional e estrutural.
Sigmund Freud, há mais de um século, nos alertou para a existência de uma força em nós que não deseja a vida, o progresso ou a construção de laços, mas sim a destruição, a repetição e o retorno ao inorgânico. Em Além do Princípio do Prazer, Freud nomeou essa força como pulsão de morte. Hoje, ao observarmos líderes ameaçando o mundo com armamentos nucleares, populações inteiras consumindo notícias de destruição com morbidez e um clima global de desesperança e ansiedade, é inevitável constatar: a pulsão de morte está em plena atividade.
Mas o problema não é apenas a existência dessa força pulsional. O maior perigo reside na falência das barreiras civilizatórias que, durante muito tempo, sustentaram o recalque social da violência. Como Freud descreveu em O Mal-estar na Civilização, a vida em sociedade é possível graças a um pacto implícito de renúncia pulsional. Precisamos, enquanto sujeitos, reprimir nossos impulsos destrutivos em nome de um convívio minimamente pacífico. Esse pacto, porém, parece estar ruindo.
As instituições que antes protegiam a vida — o direito internacional, as instâncias de mediação de conflitos, os mecanismos democráticos — estão sendo deslegitimadas, desacreditadas ou instrumentalizadas por interesses belicistas. A linguagem política adota um tom sádico, desumanizador e provocador, enquanto os discursos de ódio se tornam parte do cotidiano. Vivemos o que podemos chamar de uma regressão coletiva, uma psicopatologia da civilização, onde os sujeitos e os coletivos parecem presos a um acting out de destruição.
No entanto, a psicanálise não se limita a diagnosticar o sintoma. Ela também aponta saídas. Lacan nos lembra que, diante do real da violência, a única via de elaboração é a palavra. Frente ao risco de repetirmos a barbárie histórica, precisamos apostar na ética da escuta, da simbolização e da responsabilização subjetiva. Isso significa que não podemos permitir que o outro seja reduzido a um objeto descartável. É preciso restaurar sua condição de sujeito, alguém que deseja, sofre, fala e merece reconhecimento.
E como agir, então, individualmente e na formação de grupos pela paz, sem cair em armadilhas narcisistas ou sectárias? A psicanálise nos convoca a um posicionamento ético que vai além das identificações de grupo. Não se trata de levantar bandeiras apenas por identidade, nacionalidade, raça ou gênero. Trata-se de um apelo universalista, que reconhece que a pulsão de morte atravessa a todos, e que o compromisso com a vida e com a paz também deve ser uma escolha universal.
O sujeito ético, segundo a psicanálise, é aquele que se responsabiliza por sua posição no laço social, que reconhece a própria participação nos discursos que alimentam a violência, e que decide agir de forma a não repetir cegamente a lógica do ódio. Individualmente, isso pode significar:
Examinar criticamente os próprios discursos e preconceitos; Recusar participar da propagação de discursos de ódio, de fake news, de teorias conspiratórias que alimentam a guerra simbólica; Criar espaços de escuta nas relações cotidianas, sejam familiares, profissionais ou comunitárias; Sustentar a palavra onde impera o silêncio ou o grito.
Na formação de grupos pela paz, o convite psicanalítico é para que esses movimentos não se organizem a partir da lógica de "nós contra eles", mas que construam um campo discursivo que acolha a diferença sem demonizar o outro. Grupos pela paz devem ser, antes de tudo, espaços de elaboração coletiva, onde a angústia social seja simbolizada e onde os sujeitos possam reconhecer, juntos, as armadilhas do gozo com a destruição.
Defender a não violência, nesse contexto, não é um ato de ingenuidade. Pelo contrário, é uma escolha ética radical. Significa resistir à lógica fácil da aniquilação, recusar o gozo inconsciente da destruição e optar pelo difícil trabalho de elaboração dos conflitos. Nomear o ódio, reconhecer a agressividade e transformá-la simbolicamente é uma tarefa árdua, mas necessária. Requer investimento em educação para a paz, fortalecimento das instituições de mediação e criação de espaços públicos de escuta e diálogo.
A insanidade da guerra se manifesta quando os sujeitos, alienados de sua responsabilidade, agem guiados por impulsos de ataque e vingança. Essa alienação é perigosa porque transforma a violência em solução naturalizada, tornando-a parte de uma rotina discursiva e institucional. Por isso, combater a insanidade da guerra é, antes de tudo, um trabalho de restauração do laço social.
Enquanto houver sujeitos dispostos a sustentar a palavra, a escuta e a ética do cuidado com o outro, ainda haverá espaço para a vida prevalecer sobre a morte. A psicanálise, como campo clínico e ético, nos convoca a essa escolha todos os dias: transformar o silêncio do trauma em narrativa, a compulsão de repetição em elaboração e o desejo de destruição em responsabilidade subjetiva. Em tempos de ódio e ameaça, reafirmar a não violência é o ato político mais urgente e necessário.
Paulo Lemos é advogado especialista em Direito Público-administrativo e Eleitoral, Defensor de Direitos Humanos, Escritor e Professor.

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