Gonçalo Antunes de Barros Neto
A experiência da angústia é uma faceta inerente à condição humana, uma sombra que paira sobre todos enquanto se navega pelos labirintos da existência. Desde os tempos antigos até os atuais, filósofos e pensadores têm explorado essa emoção complexa e enigmática, buscando compreender suas origens, seus efeitos e seu significado último.
A angústia surge quando se confronta com a finitude da vida, a incerteza do futuro e a inevitabilidade da morte. É um eco da consciência de da própria existência, uma sensação de vazio e desamparo diante do abismo do desconhecido. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard descreveu a angústia como uma "tontura da liberdade", um temor diante das infinitas possibilidades que se estendem diante de todos.
Esse sentimento também está ligado à busca por sentido e propósito na vida. O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre argumentou que o homem e a mulher estão condenados à liberdade, obrigados a fazer escolhas em um mundo sem sentido intrínseco. Essa liberdade angustiante se coloca diante da responsabilidade de criar o singular significado na vida, uma tarefa assustadora e desafiadora.
Albert Camus, filósofo existencialista, abordou o tema da angústia e do absurdo da existência em sua obra, especialmente em seu ensaio "O Mito de Sísifo". Para Camus, a angústia surge da consciência do absurdo da vida, da percepção de que o mundo é irracional e indiferente aos desejos e aspirações humanas.
Segundo esse pensador, o ser humano busca sentido e significado em um universo que é essencialmente absurdo e sem propósito. A angústia surge quando há confronto dessa realidade com a percepção de que as tentativas de encontrar significado são em vão. Para ele, a vida é como uma pedra que Sísifo, na mitologia grega, é condenado a rolar montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta ao vale, e recomeçar num ciclo interminável e sem sentido.
Entretanto, Camus não vê a angústia como uma razão para o desespero ou para o niilismo. Pelo contrário, ele argumenta que a consciência do absurdo pode ser libertadora, pois permite confrontar a vida de frente, sem ilusões ou falsas esperanças. Em vez de buscar um sentido transcendental ou uma ordem cósmica, deve-se aceitar o absurdo e encontrar significado na própria experiência humana, na busca pela liberdade e na criação dos próprios valores e propósitos.
Assim, a angústia não é apenas um fardo a ser suportado, mas também uma oportunidade para a autenticidade e a realização pessoal. Ao aceitar o absurdo da existência e abraçar a liberdade, pode-se encontrar uma espécie de felicidade trágica, uma "alegria revoltada" que surge da própria consciência do absurdo e da coragem de viver em meio a ele.
A angústia é uma parte inextricável da condição humana, uma resposta natural às tensões e contradições da vida. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche explorou o conceito de "niilismo" (conceito particular de niilismo), a percepção de que a vida é essencialmente sem sentido ou valor. No entanto, Nietzsche viu na angústia uma oportunidade para transcender as limitações da existência humana e afirmar a vontade de poder.
Enquanto alguns podem ser consumidos pela angústia, outros encontram maneiras de enfrentá-la e até mesmo abraçá-la como uma fonte de crescimento pessoal. O neuropsiquiatra vienense Viktor Frankl, sobrevivente a quatro campos de concentração nazista, argumentou que se pode encontrar significado mesmo nas circunstâncias mais extremas, sejam elas quais forem. Ele desenvolveu a terapia do sentido, que enfatiza a importância de encontrar propósito e significado na vida como uma forma de superar a angústia existencial.
A angústia existencial é uma parte inevitável e intrínseca da jornada humana, uma sombra que persegue enquanto se caminha pelos caminhos tortuosos da vida. No entanto, ao enfrentar essa angústia de frente, descortina-se uma profundidade de compreensão e autenticidade que enriquece a experiência e capacita a abraçar a plenitude da vida, com todas as suas alegrias e tristezas, como uma oportunidade para crescimento, transformação e autoconhecimento.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto (Saíto) tem formação em Filosofia, Sociologia (PPG UFMT) e Direito, e escreve em A Gazeta.

Ainda não há comentários.
Veja mais:
Recursos: MP destaca que STJ ajusta penas em casos graves
Prazo para recurso da avaliação de títulos do CNU termina hoje
Taxação da carne bovina brasileira pela China
PM desmantela esquema de furto de diesel no Estado
Cibersegurança municipal: o risco invisível que já bate à porta
Wellington defende derrubada de veto à regularização na faixa de fronteira
TJ: entidade filantrópica pode ingressar ação no foro de seu domicílio
Brasil institui o Mês Nacional das Olimpíadas Científicas e do Conhecimento
PC deflagra operação contra furto de defensivos agrícolas
Justiça condena concessionária por morte causada por animal