Lázaro Donizete da Silva e Vanderly Scarabeli
É comum em qualquer cidade ou Estado, a chegada de um estabelecimento de grande porte gerar um alvoroço. É natural. Vai gerar empregos e renda. No primeiro momento tem-se um alarde sobre o número de vagas de emprego. São muitas e, por isso, muitas vezes, o Poder Público, concede alguns tipos de incentivos ou até isenções. Tudo dentro da legalidade.
Passa algum tempo, um outro evento passa a ocorrer na cidade: o fechamento de estabelecimentos menores. Um primeiro, depois outro e logo, não se os tem mais. São uns poucos empregos isoladamente, mas, no conjunto significa muito. Na prática a economia local ficou refém de uma rede e, para dissimular seu monopólio, não raras vezes, cria uma segunda marca para competir com ela mesma. O grande problema das redes é que tem sede em outro local e os lucros são deslocados.
A sua capacidade econômica passa a impor condições para o produtor, ou se produz para eles e nas condições deles, ou trazem produtos de outras regiões sufocando a produção local. Você poderia dizer: mas isso é bom. Sim e não. Sim, pela padronização assegurando melhor qualidade. Não, porque acaba impondo preços exploratórios ao produtor, o que desestimula o desenvolvimento econômico. É verdade que as grandes redes geram empregos, mas, cada vez menos.
Nas redes de supermercados, por exemplo, antes era atacado e varejo, na atualidade estão sendo substituídos pelos chamados “atacarejos”, ou seja, num hibrido comportando as duas perspectivas. Pode até trazer um processo de reengenharia, mas, representa a tentativa de reduzir postos de trabalho, de custos com a localização, entre outros e, aumentar a lucratividade.
O processo de autoatendimento cada vez mais reduz o número de trabalhadores e não significa menor preço, apenas parte de um processo de concentração de renda. Vários exemplos desse discurso vazio podem serem verificados, entre eles, a retirada dos cobradores (redução de custo) e que não significou nada em relação a diminuição do valor da passagem. Outra igualmente exemplificativa foram os bancos. Cada vez com menos funcionários, menos agências e um processo de virtualização do atendimento, sem que uma ou outra taxa de serviços tenha sido eliminada.
Em determinados estabelecimentos tem-se observado a formação de uma fila para se pesar os produtos (frutas e verduras) e depois ingressar em outra, para o pagamento. Seria interessante aplicar, por analogia, a Lei Municipal 4.069/2001, ou seja, que o tempo máximo para o atendimento não ultrapassasse quinze minutos. Dessa forma, essas redes, melhorariam o atendimento com a contratação de mais funcionários.
A tecnologia e todos os avanços que se possam ter são bem-vindos, contudo, é preciso que se tenha a transparência necessária em informar o custo social, ou seja, quanto desemprego e a concentração, ainda maior, do capital. Assim, quando não se tem um funcionário no caixa, porque a tecnologia permite que se adquira através de processos tecnológicos, não será para o consumidor o benefício, embora possa aparentar.
Como as pessoas não estão afeitas ao uso desses aparatos tecnológicos, também, ocorre uma segregação dissimulada. Nesse interim, se dá o desconforto, os inconvenientes de enfrentar filas, apenas porque a rede de supermercado, por exemplo, preferiu adotar esses procedimentos, ao invés de ter mais um funcionário. E, antes que bradem qualquer palavra descabida, ninguém, num mundo globalizado e capitalista quer o fracasso de uma empresa, mas, apenas que se tenha um olhar social, humano e racional sobre situações que ocorrem e se tornam invisíveis aos mais condescendentes.
Acredito que a tecnologia agrega comodidades que a sociedade moderna não irá dispensar. Esse é o aspecto racional a ser observado. No entanto, racionalidade não se desvincula do aspecto social, porque as ações humanas são para atender necessidades humanas e, nem se desprezara este ou aquele estabelecimento, apenas e tão – somente – desenhará que o lucro é consequência e não a primeira razão das atividades humanas.
Um último esforço de pensamento, há que se ter o cuidado de, no campo das liberdades de iniciativa de mercado, ficar refém de redes atacadistas, que passam a estabelecer feudos, que com voracidade vem engolindo histórias, sonhos e marcas.
Há uma frase que define bem essa arena de competição: uma jaula e lá dentro, um leão, um cordeiro, soltos para usufruírem o melhor de suas vidas. Todos, os dois, tem uma igualdade e ninguém lhes controla. Passa o tempo e a natureza sinaliza ao leão através do seu apetite e jazz um cordeiro”. Só para lembrar aqueles que acreditam nessas fábulas de generosidade das grandes redes, em qualquer segmento, que como o próprio nome “rede”, só está aguardando o momento de realizar a captura do mais afoito ou menos informado.
*Lázaro Donizete da Silva, Pedagogo e Graduado em Serviço Social (UFMT) , Especialista em Gestão Pública Municipal (UAB/UFMT).
**Vanderly Scarabeli, Historiador, Assistente Social formado pela UFJR e mestre formado pela UNESP.

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