Vivaldo Lopes
Há uma posição consensual que, para Mato Grosso manter o seu ritmo chinês de crescimento, precisa ampliar e tornar mais eficiente sua logística de transportes. Condição sem a qual não alcançará de forma competitiva os mercados consumidores nacional e mundial. Outro consenso nos meios empresariais, políticos, financeiros é que esse grande desafio somente será superado com forte participação do capital privado em todos os modais de transportes, rodoviário, ferroviário, hidroviário e aéreo.
A despeito do atual cenário desafiador enfrentado pelo setor agropecuário, com queda da produção pela escassez e irregularidade das chuvas, aumento dos preços dos principais insumos e dos fretes marítimos, queda de preços das principais commodities agrícolas, trata-se de situação conjuntural.
Não alcançará o tamanho de uma crise estrutural que possa alterar a matriz econômica do estado. Será superada com ação integrada da administração federal, bancos financiadores e produtores rurais. Não deve alterar as boas expectativas de médio e longo prazos do setor agropecuário e, por conseguinte, da economia estadual.
Diante da necessidade de expansão e aperfeiçoamento dos modais de transporte, assume grande protagonismo a construção do trecho ferroviário Rondonópolis-Primavera do Leste-Cuiabá-Lucas do Rio Verde. O novo traçado ligará o centro de produção agropecuário localizado no meio oeste de Mato Grosso ao Porto de Santos, responsável pela maioria das exportações do país.
O avanço da ferrovia Vicente Vuolo, tem extensão de 720 Km e terá terminais em Primavera do Leste, Cuiabá e Lucas do Rio Verde. Resulta de grande esforço do grupo empresarial que detém a concessão, governo estadual, assembleia legislativa, bancada federal e instituições representativas empresariais.
Os impactos econômicos e sociais de uma ferrovia são notórios, estudados e bem conhecidos no mundo inteiro. À guisa de exemplo, levantei alguns indicadores do município de Rondonópolis após o funcionamento pleno do grande terminal construído naquela cidade em 2013 pela antiga concessionária. Em 2015 a ferrovia foi adquirida pela Rumo Logística, a maior operadora ferroviária do país.
Segundo o anuário Multi Cidades: Finanças dos Municípios do Brasil, publicado pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP), no período de 2016 a 2022, a arrecadação de ISS (Imposto sobre Serviços) de Rondonópolis cresceu de R$ 63,52 milhões para R$ 147,37 milhões. O ICMS do município subiu de R$ 153 milhões em 2016 para R$ 352 milhões (2022). Em 2016 o governo municipal investiu R$ 57,15 milhões com suas próprias receitas.
Em 2022 os investimentos aumentaram para R$ 398 milhões, ficando na 16ª. posição do “Ranking Top 100” das cidades que mais investiram no país, à frente da maioria das capitais e de grandes cidades brasileiras. O PIB do município que era de R$ R$ 8,327 bilhões em 2015 saltou para R$ 17,295 bilhões em 2021 (IBGE), garantindo à Rondonópolis o status de segunda maior economia estadual, atrás apenas de Cuiabá e à frente de Várzea Grande, a segunda cidade mais populosa do estado.
É razoável supor que os mesmos impactos econômicos e sociais positivos ocorrerão nas cidades que vão receber os novos terminais (Primavera do Leste, Cuiabá e Lucas do Rio Verde), de forma proporcional às características de suas economias. Além, naturalmente, da grande quantidade de empregos que são gerados na fase da construção dos trechos.
A empresa, que tem capital aberto e ações na Bolsa de Valores (B3), informa que desde a aquisição da ferrovia foram investidos aproximadamente R$ 20 bilhões para ampliar, tornar mais eficiente, mais competitiva e segura a operação ferroviária.
Relatórios da companhia mostram que transporta anualmente 22 milhões de toneladas para o Porto de Santos. Quando o terminal de Lucas do Rio Verde entrar em plena operação, a ferrovia chegará a 45 milhões de toneladas de cargas diversas como soja, milho, farelo de soja, etanol de milho e cana de açúcar, madeiras, algodão, carnes. Dos centros industrializados trás fertilizantes, bebidas, alimentos processados, medicamentos, fraldas, materiais para construção, etc.
A importância estratégica da construção da ferrovia justifica a alta prioridade que os mato-grossenses dedicam a ela, pois certamente terá contribuição expressiva no desenvolvimento econômico e social do estado nas próximas décadas.
Vivaldo Lopes é economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP (vivaldo@uol.com.br)

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