Vivaldo Lopes
Duas questões que mais ouço em encontros empresariais, acadêmicos, palestras e até em conversas casuais com amigos: o exponencial crescimento da produção agropecuária inibe o desenvolvimento industrial de Mato Grosso? Quando e como será o novo ciclo industrial mato-grossense?
De forma menos intensa, as mesmas questões surgem nos debates em âmbito nacional. Afinal, a desejada neo-industrialização do Brasil estaria sendo atrasada pela matriz agroexportadora do país?
Ambas as questões têm a mesma resposta. A agropecuária não é um fator inibidor da industrialização brasileira nem mato-grossense. Ao contrário, a boa performance do setor está impulsionando a industrialização em determinados segmentos.
Em nível nacional, a excelente produção do setor extrativista (petróleo, gás natural, minério de ferro, lítio) força a Petrobras e Vale, as duas maiores companhias brasileiras, a aumentar cada vez mais o processamento da produção mineral bruta, estimulando toda a cadeia industrial ligada aos seus produtos. A Petrobras avança no refino e outros produtos, como resinas, que agregam valor à produção bruta e também na industrialização de fertilizantes nitrogenados.
A Vale já tem planta siderúrgica e anunciou que vai montar planta industrial de briquetes de aço, adicionando valor ao minério de ferro bruto. Sem contar a indústria de celulose que apresenta crescimento exponencial nas duas últimas décadas.
Nos últimos anos, os dois fatores que mais contribuíram para o forte crescimento do PIB de Mato Grosso do Sul foram o aumento da produção agrícola e a instalação de várias plantas industriais de celulose de eucalipto na região dos municípios de Três Lagoas, Dourados, Maracaju e da pequena cidade de Ribas do Rio Pardo. A Coamo (Cooperativa Agropecuária de Campo Mourão), a maior do país, anunciou em seu novo plano de negócios, que em 2024 vai investir R$ 2 bilhões para construir, no estado do Paraná, sua primeira fábrica de etanol de milho.
Mas é na área de alimentos que o processo de industrialização da produção primária está mais acelerado. Segundo a Abia (Associação Brasileira da Indústria da Alimentação), no Brasil existem 38 mil indústrias processadoras de alimentos. Toda a cadeia produtiva responde por 12% das pessoas empregadas (2 milhões empregos diretos e 10 milhões indiretos), ocupando a posição de maior ramo da indústria de transformação brasileira.
Praticamente sem interferência estatal, a indústria de alimentos investe R$ 30 bilhões anualmente para abastecer o mercado nacional e externo. Em 2022 as exportações de alimentos industrializados alcançaram o volume de U$ 60 bilhões. Há sete anos atrás, essas mesmas exportações eram de apenas U$ 35 bilhões.
Em Mato Grosso, a industrialização da produção agropecuária cresce contínuamente há mais de uma década. Nos últimos dez anos, o processamento de alimentos teve boa aceleração, seguindo a vocação econômica natural da economia local.
Ainda exportamos em estado natural a maior parte da soja, milho, algodão e carnes. Mas aumenta a cada ano o percentual dessas commodities que se transformam em óleos comestíveis, ração animal (pets, suínos, bovinos, frangos, pipocas). O estado ampliou plantas industriais para processamento de carne bovina, suína, frangos e até fábricas de gelatina, derivada do couro bovino e utilizada para consumo humano e como insumo da indústria farmacêutica.
O segmento de processamento de alimentos responde por mais de 70% das indústrias de Mato Grosso, confirmando que a vocação econômica do estado é ser campeão nacional da produção agrícola e também de processamento de alimentos, demonstrando que as duas atividades não são excludentes. Ao contrário, são complementares.
A industrialização de alimentos pode ajudar Mato Grosso a substituir a alcunha de “celeiro do mundo” para o de “supermercado do mundo”, como já disse certa vez o meu amigo Gustavo Oliveira, quando era presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (FIEMT).
Todavia, o grande salto industrial de Mato Grosso foi promovido pelo advento da indústria de etanol do milho. Em 2015 o estado não tinha nenhuma fábrica de etanol de milho. Em 2023 chegamos a 12 em operação. Em todo o país, existem apenas vinte plantas industriais exclusivamente de etanol de milho. Dos oito bilhões de litros de etanol de milho que o Brasil consumirá em 2024, quase seis bilhões sairão de Mato Grosso.
Em termos macroeconômicos, o grande desafio que se apresenta a Mato Grosso é como transformar a riqueza natural e temporária da agropecuária, sujeita às flutuações mercadológicas mundiais, em valor agregado, adicionando conhecimento científico e inovações tecnológicas para qualificar e dar sustentação ao crescimento do estado a longo prazo.
Vivaldo Lopes é economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP (vivaldo@uol.com.br)

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