A produção de autoanticorpos — anticorpos que reconhecem moléculas do nosso próprio corpo – cresce significativamente em pacientes com mais de 50 anos infectados com a covid-19, e isso pode explicar por que a severidade dos casos aumenta com o avanço da idade.
É o que aponta uma pesquisa coordenada pelo professor Otávio Marques, pesquisador associado do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, cujo estudo aliou conhecimentos de imunologia e técnicas de análise de dados por meio de aprendizado de máquina.
O estudo é fruto de uma colaboração entre cientistas do Brasil, Estados Unidos, Israel e Alemanha, e acaba de ser publicado na revista npj Aging, do grupo Nature. A partir de dados coletados em diversos hospitais dos EUA, os pesquisadores mapearam os autoanticorpos ativados na doença, destacando o papel da idade na desregulação do sistema imune e a ação de moléculas relacionadas a casos de trombose, doença caracterizada pela formação de coágulos em vasos sanguíneos.
"Observamos que a probabilidade desses autoanticorpos influenciarem em um caso severo de covid é maior em pacientes com mais de 50 anos e piora conforme a idade avança, assim como a incidência de trombose", afirma Marques. "A trombose é uma das complicações mais graves da covid-19, que ocorre em cerca de 15% dos pacientes e pode até levar a morte", acrescenta.
Para chegar a essas conclusões, foram analisados dados de 232 indivíduos não vacinados, 159 dos quais testaram positivo e 73 que não tinham contraído a doença. A partir de um conjunto de dados de 58 autoanticorpos, detectou-se que 16 sofreram um desequilíbrio significativo, sendo que dois deles, a antiglicoproteína plaquetária e a anticardiolipina, apresentaram um desbalanço ainda mais expressivo e estão relacionados com a incidência de casos de trombose.
Esses 16 autoanticorpos, sobretudo os dois citados, atuam por todo o organismo. "Assim como a covid-19, que afeta todo o corpo, esses autoanticorpos podem provocar complicações diversas, que vão desde trombose assintomática até a morte súbita. Nos casos dos pacientes com comorbidades, ou infectados por uma variante mais inflamatória, essa desregulação imunológica é ainda maior", explica Marques.
"Apesar de também existirem em indivíduos saudáveis, os 16 autoanticorpos estavam com seus níveis séricos [relativos a substâncias do sangue] aumentados nos pacientes mais graves. Esse desequilíbrio pode ocorrer por diversos fatores", conta Dennyson M. Leandro Fonseca, doutorando do ICB-USP e primeiro autor do artigo.
"O principal deles é que com o passar dos anos, nosso organismo passa pelo processo de imunossenescência ou envelhecimento imunológico, que está associado ao progressivo declínio da função do sistema imune. Isso cria uma situação propícia para a desregulação do sistema imunológico e o aumento na gravidade de inflamações", detalha.
Porém, segundo Marques, é possível retardar essa imunossenescência por meio de hábitos saudáveis como alimentação regrada, prática equilibrada de esportes e cuidados com a saúde mental.
Os 16 autoanticorpos encontrados no estudo se juntam com autoanticorpos como o anti-IFN do tipo I, que já haviam sido identificados anteriormente, para explicar por que o aumento da idade e a severidade dos casos de covid andam lado a lado. "Esse conhecimento amplo sobre o tema abre um leque maior de possíveis alvos terapêuticos", afirma o professor.
Classificação estatística — Vários algoritmos de aprendizado de máquina foram utilizados no estudo como o support vector machine, que analisa os dados e reconhece padrões, dividindo-os em diferentes classes, e o RandomForest, que se baseia no modelo de árvores de decisão, em que uma decisão é tomada pelo sistema com base em duas alternativas da mesma classe. A diferença para outros softwares desse tipo é que no caso do RandomForest são criadas diversas árvores diferentes aleatoriamente — no estudo, cerca de 5 mil.
Isso permitiu mostrar com maior precisão quais desses autoanticorpos são capazes de classificar os pacientes de acordo com a severidade da doença. "É feito um ranqueamento de qual anticorpo é mais expressivo de acordo com cada característica. O que aparece mais vezes, entendemos como mais importante. É um modelo muito eficiente, com grande reconhecimento internacional", explica Igor Salerno Filgueiras, segundo autor do estudo.
Segundo Marques, além da covid-19, o trabalho abre portas para a investigação do comportamento de autoanticorpos em contextos de outras doenças, como a sepse — resposta inflamatória intensa provocada por infecções graves. "A trombose é um fenômeno muito frequente nos pacientes com sepse grave, e muitos acabam morrendo. Possivelmente esse trabalho abrirá portas para investigar o papel dos autoanticorpos nesses outros contextos e usar isso como biomarcador para avaliar a eficácia de um tratamento ou para o desenvolvimento de novas terapias, por exemplo", afirma o professor.
Da Acadêmica Agência de Comunicação/SP

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