João Edisom
A realidade é única para cada pessoa, mas a verdade é senhora do tempo, do espaço e da vida, impossível escapar dela. Devido a isso, algumas pessoas vivem dentro de bolhas cujas informações são seletivas e direcionadas. Para estas, vale até a mentira como afugento para combater as verdades não desejadas. É assim na política, na religião e no futebol, onde para muitos só vale os contos que cabem dentro da própria bolha onde se encontra os iguais que professam a mesma fé.
Platão, na metáfora do mito da caverna, define a realidade como sendo composta de dois domínios: o das coisas sensíveis e o das ideias. Para ele, a maioria da humanidade vive na infeliz condição da ignorância, ou seja, vive no mundo ilusório das coisas sensíveis, as quais são mutáveis, não são universais e nem necessárias e, por isso, não são objetos de conhecimento e sim da ilusão.
Para alguns vivemos o pós-verdade. Mas a realidade é que vivemos os causos da bolha para a bolha. Não importa se verdade seja, o importante é que ao final eu possa sacrificar o que eu desejo destruir. Para este, quem está fora da bolha não merece viver, ou melhor, tem que morrer. E o veneno letal é a inverdade; a Fake News, o pré-julgamento!
O jornalismo informativo e o opinativo começam se enroscar nas bolhas a medida que suas informações ou opiniões não atendam aos desejos de fala da bolha. Isso não é novo, apenas nos dias atuais está intensivo devido a dois fatores: a popularização das ferramentas de comunicação e a ascensão ao poder de pessoas que representam a bolha e a sociedade ao mesmo tempo.
Voltando ao mito da caverna de Platão, podemos afirmar que a superação da ignorância é dolorida, pois para ele o filósofo é aquele que, através de um processo dialético, se liberta das correntes, saindo assim da ignorância para a opinião e, depois, para o conhecimento. Estabelece, portanto, etapas bem definidas e dolorosas.
As guerras civis e as grandes guerras (primeira e principalmente a segunda) foram ascensões das bolhas sobre as demais pessoas, chegaram ao poder. Propagar as verdades inventadas e negar os fatos são apenas alguns dos argumentos corriqueiros daqueles que desejam governar para si mesmo. Isso ocorre em todas as ditaduras, mas também é possível ser visto nas democracias estruturadas ou não.
E antes que alguém pense que é privilégio de um lado da política (direita, esquerda ou centro), é bom avisar que invencionismo retórico ocorre praticamente em todas as militâncias e em boa parte do ativismo, seja ele político ou não. Os exageros e as mentiras são usados para aglutinar as tropas, por isso a primeira vítima sempre será a imprensa.
Dependendo do cargo que o negacionismo estrutural (os que mentem) ocupa, ele encontra multidões para adora-lo nas igrejas. É comum pessoas se tornarem mais importantes que a religião. No futebol, os presidentes de time, torcida organizada e até torcedores “ilustres” constantemente protagonizam por falas para além dos fatos e na política não é diferente. Um bom mentiroso sempre tem vida longa entre seus idolatras. Friedrich Nietzsche já afirmava: “Os erros de grandes homens são mais fecundos que as verdades de pequenos”.
Rene Descarte afirma: “Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel”. Isto é visto por fora da bolha. A realidade real é diferente das convicções fantasiosas propagadas na bolha.
Não que o jornalismo necessariamente seja uma fonte segura de verdade ou o jornalista seja obrigatoriamente um cara sério e ético. É que a opinião enquanto informação dos fatos por si só já é ácido que corrói a bolha e ameaça as mentiras. E sem a bolha o ignorante é presa fácil do conhecimento. Na política, na religião e no futebol as bolhas, primeiro discriminam, depois machucam e, se não forem contidas, matam! A mentira tem força.
João Edisom é Analista Político, Professor Universitário em Mato Grosso.

Ainda não há comentários.
Veja mais:
CNU2: resultado preliminar das vagas reservadas já pode ser consultado
PC confirma prisão de mulher acusada de integrar facção em MT
Operação da PM derruba garimpo irregular em zona rural
IBGE prevê safra recorde de 346 milhões de toneladas em 2025
TJ: reserva para moradia não impede penhora em caso de dívida
Suspensão indevida do seguro: TJ manda indenizar por roubo
TJ decide: venda sob pressão anula contrato e gera indenização
O Agro além do Mito!
Os desafios do aluguel por temporada X falta de segurança e sonegação: o custo invisível para a sociedade
Exclusividade Fotográfica em Formaturas: Entre a Organização do Evento e os Direitos do Consumidor