Gonçalo Antunes de Barros Neto
‘O que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei’.
O que a pergunta acima sugere conceitualmente e reflexivamente?
No livro XI das Confissões, Agostinho dialoga com Deus e, ao perguntar sobre o que seria o tempo, termina por fixar o marco conceitual sobre um dos assuntos que sempre acompanhou a reflexão filosófica – a intuição.
Intuir, necessariamente, é não ter a explicação de como teria chegado a determinadas conclusões, ideias e pressentimentos. Consideráveis pesquisas científicas em todas as áreas do conhecimento humano têm traços participativos delineados a partir de intuições.
Os ‘ressignificados’, por exemplo, são constantes num mundo altamente moral e criativo como o nosso, sendo a intuição uma forte aliada nessa redescoberta de valores e significações.
Considerando que as pessoas estão acostumadas a oscilar entre o tempo passado e o tempo futuro (Pascal, Pensamentos, § 148), pois, fogem do tempo presente, mais real e menos imaginário, doído e implacável, estarão sempre na esperança, ou seja, à espera de algo que ainda não aconteceu; planejado, portanto (Clóvis de Barros Filho, Sobre o Tempo).
Em sentido contrário, se deixássemos de ter o tempo presente como meio para alcançar determinado fim (tempo futuro), estaríamos vivendo o instante de cada instante. A pessoa, portanto, não coloca seus tesouros numa espera, na esperança de um futuro por vir.
A vida só não é ilusão no tempo presente, instantâneo. Impossível se transportar para o passado ou futuro sem perda de realidade e dimensão própria dos acontecimentos, corpo e alma somente no aqui e agora. Qualquer volta ao passado só será feita no tempo presente, e, ao revisitar o passado, percebe-se que ele deixa de ser o que era e passa a ser o que não era. E isso se chama morte.
Qualquer um pode considerar o que sabe agora e perguntar o que sabia vinte anos atrás e perceber que, de uma forma obscura, estava esforçando para alcançar algo que somente hoje é capaz de compreender (Chomsky, o debate com Foucault). Assim, impossível estar no futuro, pois, nele pessoa nenhuma sabe o que saberá. E no passado só haverá mais ilusões, apetites e paixões.
Não se pode descer ou subir a nenhuma outra realidade a não ser à realidade de nossos impulsos (Nietzsche, Além do Bem e do Mal). E os impulsos estão no tempo presente, é neste a possibilidade de se tirar a contraprova e transformar as coisas. A intuição é possível aqui, necessariamente, pois não prescinde do momento, antes, dele é dependente.
Intuir felicidade, alegria, é encontrar-se presentemente em determinado estado, criado por impulsos que não se sabe explicar. Mas nunca será estar no tempo passado ou à mercê de um tempo futuro.
Se sua mente, seus pensamentos, se deslocaram para lá (passado ou futuro) e ali permanece, é fuga, fuga de uma realidade que dói e que doeria menos se seus pés estivessem no chão.
É por aí...
Gonçalo Antunes de Barros Neto tem graduação em Filosofia, magistrado, autor das páginas Bedelho. Filosófico no Face, Insta e You Tube e escreve aos domingos em A Gazeta.

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