Alfredo da Mota Menezes
Tem gente do agronegócio em Mato Grosso que, em redes sociais, tem feito ataques à China. Uns chegam a atribuir àquele país a crise mundial por causa do coronavírus. Outros acreditam que a forte presença chinesa no Brasil e América Latina seria um perigo. Não se leu ainda que alguém daqui tenha seguido a opinião aloprada dos ministros da Educação e do Exterior de que o vírus é “comunista”.
Mato Grosso e o Brasil dependem do mercado chinês. A China importou do Brasil, em 2018, 68 bilhões de dólares e exportou para cá 35 bilhões, com um superávit para o Brasil de 33 bilhões de dólares. O segundo parceiro nosso, os EUA, compraram no mesmo ano 28 bilhões de dólares e venderam 34 bilhões, com superávit para eles de seis bilhões de dólares. A China comprou 40% da soja exportada pelo estado nos três primeiros meses deste ano. Cerca de 60% da soja brasileira vai para lá.
Vou para a América Latina. Desde 2005 os chineses emprestaram mais dinheiro para a região do que o Banco Mundial e BID juntos. Já investiram aqui acima de 200 bilhões de dólares em portos, rodovias e ferrovias. E o comércio em ambas a direções saltou de 12 bilhões de dólares para quase 300 bilhões. E é o maior mercado comprador das coisas da América Latina.
Pela primeira vez temos duas grandes potências mundiais se digladiando pelo mercado regional, Brasil em primeiro lugar. Antes os norte-americanos não deixavam ninguém botar a cara aqui. Na Guerra Fria a coisa esquentou e eles tomaram conta através de ditaduras militares. Depois da Guerra Fria, sem problema de comunismo, abandonaram a região. Agora, com a entrada dos chineses, estão preocupados.
O que deveríamos fazer é usar o momento a nosso favor. Tirar proveito comercial seja de um ou do outro. Não ligar para coisas de esquerda ou direita, preocupar em ganhar dinheiro.
Para Mato Grosso, o que é melhor hoje, China ou EUA? Os EUA são grandes produtores de soja, algodão e carne, não compram de ninguém, vendem no mundo. Em milho a produção deles é de 350 milhões de toneladas por ano. É maior do que toda a produção de todos os grãos juntos no Brasil. Eles, com isso, são também o maior produtor de etanol do mundo. Vão comprar algo do estado?
A China tem 1.3 bilhões de pessoas e precisa cada dia mais de comida. Cada ano tiram milhões da pobreza e a primeira coisa que uma pessoa faz quando começa a ganhar dinheiro é comer melhor.
O estado deveria grudar nesse país. Tentar trazer para cá investimentos em infraestrutura. Retomar aquela tentativa de ferrovia pelo Pacifico. Por que não?
Não é brigar com os EUA e cair nos braços dos chineses. É, insiste-se, usar o momento para ganhar com os dois. Não importa se a China tem partido único ou o que for. O que interessa é o mercado e os investimentos deles. Seria burrice não aproveitar este momento histórico.
Alfredo da Mota Menezes é Analista Político.
E-mail: pox@terra.com.br
Site: www.alfredomenezes.com

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