Lourembergue Alves
Vive-se em um cenário de crises. Crises reascendidas por um vírus que, de tão pequenino, não pode ser percebido a olho nu. E na sua condição de invisível propaga-se com facilidade inacreditável, fazendo do corpo humano sua hospedaria. Não se satisfaz com apenas uma morada. Busca sempre mais, com a ajuda da pessoa que, em contato com outras, agiganta o número de infectados, dos quais muitos se veem a própria vida ceifada. E isto tem causado dor, bastante dor, até porque a morte, ainda que venha travestida de agente silencioso, dá o seu bote também quando o seu escolhido está dormindo, não deixa de fazer o seu barulho, pois este sangra, provoca lágrimas e causa tristezas enormes a familiares, amigos, conhecidos e vizinhos. Estas vidas, tanto quanto dos infectados, não podem ser ignoradas na discussão sobre o cenário construído pela pandemia.
Infelizmente, a discussão que deveria ocorrer não se dá. Substituída que fora pelo bate-boca, briga de rua. Nesta briga, ganha força a condição de torcedor. Torce-se com tamanha intensidade que a palavra da ciência, dos estudiosos e dos especialistas é jogada para escanteio, como se valor algum tivessem. Prevalece o achismo em detrimento da opinião, do conhecimento de causa. Isto é muitíssimo estranho. Estranheza que se avoluma quando autoridades, aquelas eleitas, e nomeadas por estas, para defenderem os interesses da sociedade e do Estado, se valem de palavreado descontextualizado, subestimam a potencia do coronavírus, cujos efeitos – dizem - não passam de “gripezinha”, “resfriadinho”. “Gripezinha” ou “resfriadinho” que mata e deixa acamada uma porção de gente. Ainda assim, as frases ditas por essas autoridades tem eco, são repetidas nas redes sociais e em alguns lares. Ah!... Quando alguém se levanta e fala dos números, é logo chamado de “esquerdista”, de “esquerdopata” – ataques antigos, constantes durante a ditadura militar no país, dirigidos a quem ousavam discordar do regime, do governo. Filme em reprise agora, com igual “script”, contracenado por atores “novos”, e ovacionado por uma plateia também distinta da que se tinha de 1964-85, sem o filtro e despido do olhar crítico.
Cenas que se somam a outras. Mas, diante de qualquer resistência contrária, repetem-se os ataques, taxando quem fez a opção pelo isolamento social de “covarde”. O coro de apoiadores entra em ação, com a seguinte argumentação: “o trânsito mata mais do que o coronavírus”. É verdade que o trânsito fere e mata muitas pessoas. Mas, em instante algum, numa discussão sobre a expansão do vírus e infectados por ele, serve de argumento para contrapor-se a recomendação do isolamento social, quarentena e o fechamento de parte do comércio. E, ao trazer para esta discussão os números de vítimas do trânsito, soa, passa a ideia como se valor algum tivessem as vidas das vítimas do Covid-19. Isto é grave. Tanto quanto grave a afirmação de que “não se deve preocupar em demasia com os números do coronavírus, afinal a humanidade sempre esteve às voltas com uma pandemia”.
Já se teve cólera, febre amarela, gripe espanhola, etc., etc. Tal retrato das pandemias, contudo, serve para outra coisa, a reafirmação de que o mundo não aprendeu com as lições deixadas por essas doenças. Aliás, o Covid-19 mostra isto com clareza. Quando tudo isso passar, e a vida voltar à normalidade, sem o vírus, parece que nada mudará, o ser humano demonstrará nada ter aprendido com as lições da doença. Infelizmente! Voltar-se-á a ter a velha estrutura, caótica, da saúde pública. Utilizada tão somente como discurso em campanha eleitoral, porém desacompanhada de qualquer plano ou projeto de melhorias. Triste! Bem mais triste ainda é observar que políticos se valem dos rastros sangrento do vírus para conquistas de dividendos eleitorais, a começar do presidente da República, passando por governadores, prefeitos, parlamentares e outros agentes. Tal retrato se torna pior com a figura do torcedor. É isto.
Lourembergue Alves é professor universitário e analista político. E-mail: lou.alves@uol.com.br.

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