Paulo Lemos
A política de isolamento social é a medida mais eficaz contra a propagação do Coronavírus, desde que ações sanitárias sejam observadas no confinamento. Outras são a testagem em massa, o monitoramento dos casos suspeitos e maiores cuidados com os grupos de risco.
Porém, ela precisa ser sustentável, mediante políticas públicas que dêem condições para cerca de 70% da população brasileira ficar em casa, sem trabalhar, mantendo renda familiar.
Não é simplesmente dizer "Fiquem em casa!". Mutatis mutandis, isso é parecido com o quê o governo Temer disse quando falou "Vão trabalhar!", em tempos de índices alarmantes de desemprego.
Quem acha que é possível o isolamento social, sem compensação governamental e contribuição social, vá até às favelas e periferias e converse com os moradores de lá, pergunte se trata de uma questão de vontade pessoal e/ou estado de necessidade.
Portanto, quem tem condições defender o isolamento sem exigir cobertura social para quem não tem, não é só irresponsabilidade ou insensibilidade, é cruel e desumano, é pensar apenas em si, sem levar em consideração a realidade precária do próximo. Assim como negar os riscos do Coronavírus é estar descolado da realidade e vivendo orientado por Fake News e o "guru presidencial", Olavo de Carvalho, "o falastrão".
Percebem, os governantes "lavam as mãos" e jogam toda responsabilidade para os cidadãos, porém sem viabilizar meios para isso, sem tocar em assuntos sensíveis, de interesse público, como o porquê de termos um SUS sucateado e correndo o risco de colapsar, em um país tão rico como o nosso, com uma carga tributária estratosférica.
Essa briga aqui em baixo de quem é a favor ou contra o confinamento, sem questionar os problemas estruturais que temos e nos coloca na berlinda neste momento, é despolitizada e alienada, nada construtiva, muito menos capaz de intervir para mudar o status quo e enfrentar o fosso de desigualdade e injustiça social que temos, inclusive na ausência de leitos de UTI's, pessoal, artefatos e insumos para enfrentar o Coronavírus.
É tudo muito conveniente para as autoridades, que apenas dizem para "ficar em casa", como se toda nossa gente pudesse cruzar os braços, enquanto e os governantes mantém os deles cruzados também.
Daí vira uma hecatombe, "se ficar o bicho pega, se correr o bicho come", não dando opção para o povo, que não seja o apavoramento e desespero.
Termino com algumas propostas para financiar o cobertor social e a economia de subsistência que precisamos para ter uma política pública de saúde e isolamento social sustentável neste momento de crise: revogar a PEC do Congelamento dos Gastos Sociais, a PEC da Previdência, á retomada do Fundo Social do Pré-sal, a Taxação das Grandes Fortunas, a compensação da Lei Kandir e uma Moratória da Dívida Pública, sendo remanejada a dotação orçamentária para a Seguridade Social - a última proposta, enquanto durar a pandemia, o isolamento social e a interdição do comércio.
Paulo Lemos é advogado especialista em Direito Eleitoral e Público-administrativo, professor, palestrante, seminarista, conferencista e articulista.

Ainda não há comentários.
Veja mais:
INSS terá fila nacional para reduzir tempo de espera
Software: TJ mantém bloqueio de conta de jogo eletrônico
Estado anuncia redução do ICMS da cesta básica em 2026
Os leprosos dos dias de hoje são os descapitalizados
Lei do salário mínimo, que faz 90 anos, organizou relações de trabalho
Cartório Central: megaoperação da PC desmantela facção
A instabilidade como método
Governo confirma suspensão de descontos de empréstimos consignados
Contrato por telefone: Justiça manda devolver valores a idosa
Tribunal de Justiça garante isenção de ICMS para compra de carro