Lourembergue Alves
O discurso é o instrumento com o qual alguém se apresenta para os outros, bem como se diz quem é. Assim, todo discurso tem um fim. Ainda que provisório, como alertara Hobbes, em o “Leviatã”. Provisório ou não, ele “dá voltas, estica-se, fica à deriva, transforma-se” – faz questão de lembrar Charaudedeau. E é por isso, (e) leitor, que não se deve procurar entendê-lo ao pé da letra, mas como estratégia. É desta forma que se deve encará-lo no campo político. Neste, claro, o discurso é o lugar de um jogo de máscaras. Estas escondem, ocultam e simulam uma dada realidade. Entende-se, portanto, o porquê seus autores apegam a retórica, em substituição ao fato. Retórica à moda georgiana, sem substância alguma.
Aliás, tão logo se viu livre do afastamento das funções de senador, Aécio Neves distribuiu uma nota, cujo um de seus trechos dizia que o resultado da votação no Senado “restabeleceu princípios essenciais de um Estado democrático”. Mas, afinal, quem quebrou tais princípios? O restabelecimento, de que fala o senador mineiro, não aconteceu, nem deveria se dar, pois nenhum princípio essencial fora desfeito com as medidas cautelares impostas ao senador pelo STF, para depois ser refeito com o simples retorno do neto de Tancredo Neves à Câmara Alta.
Ele, sim, cometeu crimes. Crimes que também foram cometidos por dezenas de outros políticos, entre os quais o presidente da República. Michel Temer, a propósito, também procura se livrar das acusações que pesam sobre sua cabeça, com a lengalenga de que é perseguido, imitando neste particular ao Lula da Silva, pois também considera a si próprio uma “vítima de uma conspiração” que almeja retirá-lo do cargo mais importante do país. O curioso que não é só ele que acredita nesta tal conspiração. Seus defensores parecem ter igual crença, ou se fazem passar por crentes dela.
O estranho é que o senador-presidente nacional do PSDB também se autoconsidera vítima de uma armação. Igual armação diz sentir a cúpula petista flagrada na Operação Lava-jato, em especial a sua estrela-mor, cujos advogados recorreram a ONU, sob a cantilena de uma nota só. Também se acham perseguidos os conselheiros do Tribunal de Contas de Mato Grosso que levaram de propina a bagatela de 53 milhões, de acordo com a delação do ex-governador Silval Barbosa. Fazem parte desta lista de vítimas (risos) os deputados mato-grossenses que tiveram seus rendimentos acrescidos de mensalinhos e propinas, a exemplo do atual prefeito Emanuel Pinheiro.
Certamente, acham-se vitimados pela tal armação os senadores Wellington Fagundes e Blairo Maggi. Fileira que se engrossa com os acusados pela chamada grampolândia. E, com o depoimento do capitão Gerson, passou a contar com um procurador do Ministério Público e uma juíza, além de gente graúda da Polícia Militar e do ex-secretário da Casa Civil do governo Pedro Taques.
A cantilena de vítima se soma a estratégia de desqualificação das pessoas dos denunciadores. Infelizmente, nenhum dos acusados ousa discutir os fatos que se apresentam como objetos de cada denúncia. Falta, inclusive, a desconstrução das narrativas dos delatores. A retórica se mantém, aqui, como arma dos diversos protagonistas. É neste particular, (e) leitor, que o discurso jurídico se aproxima do discurso político, pois ambos se afastam sobremaneira dos fatos como objetos. As máscaras, então, se misturam e se entrelaçam. E, valendo-se deste invólucro, os denunciados se fazem passar por vítimas. É isto.
Lourembergue Alves é professor e analista político.

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